Depois de anos de abandono, o emblemático edifício da Vila Algarve, no coração de Maputo, está prestes a ganhar uma nova vida. Outrora utilizado como centro de detenção e tortura pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) durante o regime colonial português, o imóvel será agora transformado num museu-hotel, anunciou o Governo moçambicano.

Segundo o anúncio de adjudicação consultado pela agência Lusa, o Ministério dos Combatentes confiou à empresa Giluba-Lin a responsabilidade pelo projecto de "elaboração, requalificação do edifício e exploração de actividade museu-hotel do edifício denominado por Vila Algarve".

A obra será realizada em duas etapas e tem como objectivo devolver dignidade a um edifício profundamente marcado pelo tempo e pela história. Actualmente em estado avançado de degradação, a vivenda situada no cruzamento das avenidas dos Mártires de Machava e Ahmed Sekou Touré, foi construída em 1934 e ampliada em 1950, estando classificada como Imóvel de Interesse Arquitectónico.

Ao longo dos anos, a degradação abriu espaço para ocupações irregulares por pessoas em situação de sem-abrigo. As entradas da casa encontram-se actualmente entaipadas, numa tentativa de preservar o que resta da estrutura.

Decorada com mosaicos naturalistas, a Vila Algarve é sobretudo um símbolo sombrio da repressão colonial. Ali estiveram detidos vários combatentes pela independência de Moçambique, incluindo o poeta José Craveirinha, cuja experiência está reflectida em poemas como "Não sei se é uma medalha" (1967) e nas duas versões de "Vila Algarve", de 1988 e 1998.

Após a independência proclamada a 25 de Junho de 1975, o edifício foi sucessivamente ignorado por diversos projectos que nunca avançaram. Em 2008, a Ordem dos Advogados tentou, sem sucesso, estabelecer ali a sua sede. Em 2011, equacionou-se a criação do Museu da Luta de Libertação no mesmo espaço, plano que também não se concretizou.

Inclusivamente, o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, que governou Moçambique entre 1986 e 2005, revelou que, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, propôs instalar o ministério na Vila Algarve. "Tentei utilizar a Vila Algarve. Não fui bem compreendido", disse, em entrevista à Lusa, em Junho passado. “Sempre quis que também os combatentes da Luta de Libertação Nacional estivessem lá, como sua sede. Não conseguimos, por várias interpretações.”

Chissano apelou à preservação do imóvel: "Oxalá que haja alguém que consiga realmente restaurar e preservar esta peça histórica. É uma peça histórica muito importante."

Partilha da mesma preocupação o historiador Marlino Mubai, professor da Universidade Eduardo Mondlane, para quem o abandono da Vila Algarve é incompreensível. "Está intimamente ligado à história de Moçambique do ponto de vista da luta contra a dominação colonial, fascista em particular", afirmou, recordando o fracasso de sucessivos projectos.

O futuro museu-hotel surge, portanto, como uma oportunidade inédita para conciliar memória histórica, valorização patrimonial e desenvolvimento turístico — devolvendo à cidade de Maputo um dos seus edifícios mais simbólicos.