Pelo menos 78 corpos foram retirados de uma mina de ouro abandonada em Stilfontein, África do Sul, onde mineiros ilegais estão presos há mais de dois meses. O balanço foi divulgado esta quarta-feira por autoridades locais, que também informaram que 166 mineiros foram resgatados com vida. No entanto, centenas permanecem no subsolo, e o número de mortos poderá aumentar.

O resgate, iniciado na segunda-feira por ordem judicial, decorre de forma lenta devido à profundidade do poço, com 2,5 quilómetros, e à limitação de espaço na jaula de salvamento. Sem a colaboração directa das autoridades, por alegados "motivos de segurança", voluntários assumiram a responsabilidade pela operação, que pode durar ainda mais dez dias.

Grupos cívicos denunciam que o Governo sul-africano contribuiu para o agravamento da situação ao cortar o acesso a alimentos, água e medicamentos e ao remover cordas e roldanas usadas pelos mineiros para transportar mantimentos e entrar ou sair da mina. As autoridades, contudo, sustentam que existiam outros acessos viáveis, embora perigosos, para abandonar a mina.

"Cenário de horror" revelado em vídeo

Activistas divulgaram imagens chocantes que mostram dezenas de cadáveres embrulhados em plástico numa caverna escura, além de mineiros desnutridos a implorar por comida. Há relatos de pessoas que estão presas desde Julho, em condições insalubres e debilitantes.

Estima-se que mais de 500 pessoas estavam na mina quando a operação de resgate começou. Muitos são estrangeiros, incluindo moçambicanos, zimbabueanos e cidadãos do Lesoto, conhecidos localmente como 'zama zamas', termo zulu que significa "aqueles que tentam".

A mineração ilegal é uma prática disseminada na África do Sul, especialmente na região de Joanesburgo, onde milhares de pessoas, incluindo menores de idade, trabalham em minas abandonadas. Autoridades afirmam que, desde Dezembro de 2023, cerca de 14.000 mineiros ilegais foram detidos em sete províncias, e 6.000 minas desactivadas foram identificadas em todo o país.

Impacto económico e social

O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, classificou a exploração mineira ilegal como "uma ameaça" à economia e segurança nacional, dado que as perdas anuais para o Governo e a indústria mineira chegam a mil milhões de dólares.

No entanto, as denúncias sobre violações dos direitos humanos e a precariedade das operações de resgate têm intensificado as críticas à resposta das autoridades. Entre os resgatados estão 27 menores moçambicanos sem documentos, que foram repatriados para o seu país em Dezembro.

A tragédia de Stilfontein lança uma luz sombria sobre os desafios sociais e económicos que envolvem a mineração ilegal, enquanto o número de vítimas continua a aumentar e a crise humanitária no subsolo sul-africano persiste.