Há, em Moçambique, uma onda de surfistas a crescer. O epicentro do surgimento de uma geração de surf em Moçambique é no Tofo, um pedaço daquela que é chamada a Terra da Boa Gente, a província de Inhambane, no extremo sul do país. A Escola de Surf Kymani é responsável por preparar os futuros campeões da modalidade. Curiosamente, é no Tofo a casa do primeiro surfista profissional de nacionalidade moçambicana, Mini Cho.
Apesar dos mais de três mil quilómetros de costa de que Moçambique dispõe, o desporto oceânico, em particular o surf, ainda não é muito popular no país. No entanto, este cenário pode vir a mudar nos próximos anos, graças a projectos de promoção da modalidade em curso no país. A escola Kymani é exemplo dessa transformação que pretende ser revolucionária e histórica. Kymani é uma escola moçambicana de surf, fundada em 2019 por uma tripulação dinâmica de quatro amantes do oceano e da aventura, Ebony Neil, australiana que trabalha no sector humanitário após muitos anos na educação, kebba Jobarteh, médico, Luís Antunes, empresário português e ambientalista, todos eles kite surfistas e surfistas, e Mini Cho, o primeiro surfista profissional em Moçambique.
"A Kymani pretende fazer crescer os desportos náuticos no país e colocar Moçambique no mapa como um destino internacional de kite e surf, oferecendo experiências de aventura oceânica aos mercados locais e internacionais", disse a co-fundadora da escola, Ebony Neil. A escola oferece programas para crianças de kite e surf, programas escolares, programas de férias escolares, excursões, viagens de um ou vários dias para crianças aprenderem a andar de kite, a surfar ou SUP. "Fornecemos viagens de kite e surf para kite e surf spots de classe mundial, para Pemba, Ilha de Moçambique, Inhassoro, Vilanculos, Pomene, Massinga, Tofo, Barra, Quissico, Chidenguele, Bilene, Maragra, Inhaca, Ilha dos Portugueses, Machangulo, a Reserva de Elefantes de Maputo, Ponta do Ouro, Mamoli e Malongane", destacou Neil os principais destinos.
Mais do que uma escola, Kymani é um projecto que visa igualmente promover o turismo e elevar a consciência social e ambiental das pessoas, mostrando ao mundo a riqueza natural de Moçambique, partilhando "experiências inesquecíveis em lugares isolados e paradisíacos" do país.
“Todas as experiências de kite e surf da Kymani podem ser desfrutadas por adultos, crianças, grupos escolares, comunidades locais ou internacionais, principiantes, de nível intermédio e especialistas", explicou Ebony Neil, realçando que aspiram a organizar eventos e festivais internacionais de kite e surf em Moçambique para mostrar o que o país tem para oferecer, construir parcerias, aumentar a participação, fazer crescer a comunidade do kite e do surf e promover o turismo. "A Kymani planeia concentrar-se também na promoção do equilíbrio de género e no aumento da diversidade nos desportos, promovendo aulas de kite e surf feminino, oferecendo viagens de aventura exclusivas para mulheres, mas também oferecendo serviços com acesso garantido a homens, mulheres e crianças moçambicanas", concluiu. A escola pode ser contactada através dos seguintes websites: www.kymani.kite.surf e www.kymanisurf.com.
Mini Cho, 23 anos: a cara do surf em Moçambique
Tinha apenas 14 anos quando pegou a sua primeira onda, na sua terra natal, Inhambane. Digamos que a relação do jovem surfista com o oceano começou tarde, mas já dura quase uma década. Mini Cho é a principal cara do surf moçambicano. É o surfista número 38 no ranking de África e, actualmente, é o único moçambicano na série qualificatória (WQS) da World Surfing League.
Nascido no Tofo, na zona costeira de Inhambane, Mini Cho é filho de pai sul-coreano e mãe moçambicana. É o primeiro surfista profissional moçambicano de sempre, é o presente e o futuro do surf em Moçambique. Embora tenha nascido em Moçambique, Mini passou a infância no estrangeiro. Muito cedo os pais mudaram-se para a África do Sul, mas nunca se desligou da sua terra natal.
Mini é o único moçambicano no Circuito Qualificativo Mundial de Surf (WQS) e inspira as gerações novas a apanhar as ondas que mudaram para sempre a sua vida: "O oceano ensinou-me muitas lições de vida. Sendo um surfista, aprendemos a esperar pela onda perfeita. Aprendemos a ter paciência. Quando a onda chega, pegamos nela e fazemos o melhor que podemos. Aprendemos a aproveitar as oportunidades da vida e a aproveitá-las ao máximo. Quando caímos na nossa onda, levantamo-nos e tentamos novamente. O mesmo pode ser dito na vida", partilhou o jovem surfista a maior lição que a onda lhe podia ensinar. Aliás, foi no mar que Mini cresceu e amadureceu. É na água onde passa a maior parte do seu tempo, é nas ondas onde quer continuar a fazer o seu caminho e o seu destino, iniciado nos anos 90. "Comecei a surfar quando tinha 14 anos, o que é, relativamente, muito tarde, na maioria dos padrões profissionais. Gostava tanto que me encontrava a surfar todo o dia, o que me ajudou a progredir a um ritmo muito rápido", explicou o surfista que pegou a primeira onda em 1999, influenciado pelos seus maiores ídolos, hoje amigos, Kelly Slater e Jordy Smith.
"Quando apanhei a minha primeira onda, nunca me passou pela cabeça que eu pudesse ser surfista profissional e ganhar a vida com o surf. Era mais um hobby ou um passatempo para mim. Apenas quando eu percebi que eu estava a melhorar a um ritmo anormalmente rápido para um surfista que começou tarde, pensei e procurei me tornar um surfista profissional", contou Mini, a quem nunca faltou apoio dentro e fora de casa. Por amor ao surf, já fez algumas loucuras, como viajar até à Escócia em busca da onda mais fria. Mini diz que já experimentou e superou muitas ondas, das mais espantosas às mais perigosas, de diversos países, ao longo da carreira, mas a onda de casa será para ele sempre a melhor e mais especial de todas. "Tofinho é uma das melhores ondas do mundo em um bom dia. Conseguimos que os surfistas profissionais de topo viajem até Tofo para surfar Tofinho. É uma bela praia com ondas espantosas e pessoas fantásticas. Fora de Moçambique, o meu lugar preferido é a costa sudoeste de Portugal", revelou Mini, a quem, mesmo tendo contraído algumas lesões graves na água, nunca passou pela cabeça desistir do surf.
Apesar de ser um desporto ainda muito novo em Moçambique, há uma maré crescente de surfistas em ascensão. A maior presença de surfistas locais encontra-se na baía do Tofo, a seguir, na Ponta D'Ouro, na província de Maputo, onde são implementados vários projectos de promoção e massificação desta modalidade olímpica.
Preparar as próximas gerações por meio do surf
Desde a sua presença no Circuito Qualificativo Mundial de Surf, Mini tem visto um aumento do número de jovens, adolescentes e crianças que se interessam por esta modalidade oceânica não muito popular em Moçambique. Mini dirige a divisão moçambicana da Surfers not Street Children, uma instituição de caridade sem fins lucrativos conhecida localmente como Tofo Surf Club. O Tofo Surf Club usa o surf como ferramenta de diversão para manter as crianças fora das ruas e envolvê-las no desporto, para as ajudar a se orientar na vida. "Graças ao projecto (Tofo Club Surf), vemos menos crianças nas ruas a entrar no alcoolismo e mais crianças a surfar e a compreender como é importante o oceano", afirmou, orgulhosamente, contando como o surf impactou a sua vida e o ajudou a superar desafios. "O que me impressiona continuamente é como o surf pode mudar a vida das pessoas, eu posso falar por experiência própria. Como eu próprio usei o surf como uma fuga do mundo real. No oceano, os meus problemas ou desafios na vida nunca me seguiram. Quando os meus pés tocaram o oceano, tudo desapareceu. Estava concentrado apenas em divertir-me e desfrutar o momento presente", revelou.
O Tofo Surf Club foi fundado em 2018 e trabalha com cerca de 100 crianças no seio da comunidade. Também beneficia indirectamente as famílias das crianças através de programas sociais de geração de auto-emprego. "Tofo é uma vila baseada no turismo marinho. É importante educar a próxima geração sobre como o oceano fornece comida, empregos e turismo, para que os jovens também se apercebam do seu valor próprio e no futuro abracem todas as oportunidades de emprego em Tofo, com a esperança de se tornarem todos gestores, proprietários de empresas e proprietários do seu próprio futuro. Espero ser uma inspiração para todas as crianças em Moçambique que queiram alargar as fronteiras do desporto", desejou o surfista.
O sonho do Mundial
Mini Cho é contundente. Navegar profissionalmente é um "investimento muito caro". O seu principal desafio é conseguir apoio local para levar a bom porto o projecto de transformar o futuro das crianças da sua terra natal através do desporto. "Os meus patrocinadores são do Reino Unido e da Europa. O surf é tão novo em Moçambique que as marcas e empresas moçambicanas ainda não são grandes patrocinadoras de surfistas. Espero mudar isto para a próxima geração de surfistas, uma vez que o apoio de casa é sempre mais significativo".
Mini sonha um dia representar Moçambique num campeonato mundial da modalidade. "Os meus planos são continuar a surfar na série de qualificação, na esperança de me tornar o surfista africano mais bem classificado, e espero, num futuro breve, desafiar o resto do mundo. Sonho em representar Moçambique nos jogos mundiais de surf e um dia qualificar-me para as Olimpíadas.”
Este surfista moçambicano de 23 anos de idade esteve recentemente envolvido na criação da Tofo Boardriders Association. A iniciativa visa atrair cada vez mais praticantes da modalidade. Além disso, "temos a esperança de um dia termos uma federação de surf com o objectivo de constituir uma futura equipa olímpica moçambicana de surf, uma vez que o surf foi introduzido como desporto olímpico em 2020", concluiu.
Mini Cho tornou-se surfista profissional em 2019 e é, desde então, um filiado na World Surfing League. Ao longo da sua carreira, Mini competiu em várias provas internacionais, tendo já vencido o prémio da divisão masculina na competição de surfistas de Croyde, na Inglaterra. É o 38º surfista classificado em África e o único surfista moçambicano na série Qualificatória Mundial (WQS).
