Um projecto que começou com o olhar atento de um jovem moçambicano sobre o lixo nas ruas de Maputo acaba de conquistar o mais prestigiado galardão de engenharia do continente africano. A startup moçambicana Agriview venceu o Prémio África de Inovação em Engenharia, atribuído pela Royal Academy of Engineering de Londres, com a criação de loiça biodegradável feita a partir de cascas de milho — uma inovação que alia sustentabilidade ambiental, impacto económico e resiliência climática.
“Cada prato biodegradável dá origem a uma árvore e contribui para remover até 25 quilogramas de dióxido de carbono da atmosfera, por ano”, sublinha Joaquim Rebelo, cofundador da Agriview.
Fundada em 2021 por Rui Bauhofer e Joaquim Rebelo, a Agriview nasceu com um propósito claro: transformar resíduos agrícolas em soluções sustentáveis. O projecto propõe a substituição do plástico descartável por loiça composta por cascas de milho, que, após o uso, se decompõe naturalmente e liberta sementes capazes de germinar. Para além de reduzir o lixo plástico, a iniciativa estimula a reflorestação e valoriza produtos subutilizados.
Inspirado por um documentário sobre pratos biodegradáveis feitos de folhas de abacaxi na América Central, Bauhofer observou as cascas de milho descartadas e os resíduos plásticos acumulados nas bermas das estradas de Maputo, em 2022, e viu ali uma oportunidade.
“Acreditamos que somos os primeiros a fazer placas biodegradáveis usando cascas de labirinto”, afirma Rui Bauhofer, numa nota divulgada pela Royal Academy.
O impacto da iniciativa é também económico: agricultores que viram as suas colheitas devastadas por fenómenos climáticos extremos, como os ciclones Idai e Kenneth, podem agora recuperar entre 10% a 20% do valor perdido, através da venda de resíduos que antes não tinham valor comercial.
Com a vitória no prémio “One to Watch” do Africa Prize — uma distinção atribuída a soluções inovadoras e escaláveis, numa competição com representantes de 30 países africanos —, a startup planeia agora ampliar a produção através da aquisição de maquinaria industrial. O objectivo é escalar o projecto para os mercados africano, europeu, asiático e americano.
A Agriview alinha-se com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, ao promover uma economia circular que reduz a poluição plástica, regenera ecossistemas e impulsiona comunidades rurais.
“Este prémio traduz-se num atestado internacional do trabalho que fomos desenvolvendo ao longo dos últimos três anos. Estamos a colocar Moçambique no mapa da inovação para Resiliência Climática em África e no mundo”, conclui Rui Bauhofer.
Criado em 2014, o Africa Prize for Engineering Innovation é a maior distinção em engenharia no continente, celebrando soluções tecnológicas com impacto social e ambiental positivo na África subsaariana.
