A seca destrói colheitas, as inundações comprometem os meios de subsistência e os ciclones deixam famílias sem habitação. Em várias comunidades moçambicanas, os fenómenos climáticos extremos representam uma ameaça permanente à sobrevivência económica. É neste cenário que a organização não-governamental Save the Children pretende reforçar a capacidade de geração de rendimento e a protecção social de 13 645 famílias, até 2029, através de uma intervenção que abrange nove distritos das províncias de Gaza, Manica e Tete.
A iniciativa, denominada LINK, foi apresentada na sexta-feira (16), em Maputo, e procura criar condições para que as comunidades mais vulneráveis enfrentem os efeitos das alterações climáticas sem comprometerem as suas fontes de rendimento e condições de vida.
Segundo a agência Lusa, o projecto foi concebido para complementar o Programa de Acção Social Produtiva (PASP), desenvolvido pelo Governo moçambicano, estabelecendo uma ligação entre os mecanismos de assistência social, a inclusão económica e a adaptação aos riscos climáticos.
O director de projectos da Save the Children, Lionel Langa, explicou que a intervenção deverá beneficiar directamente 3645 famílias integradas no PASP, enquanto outras dez mil serão abrangidas por acções comunitárias destinadas a fortalecer a capacidade de resposta aos fenómenos climáticos extremos.
“A nossa aposta é assegurar que as famílias beneficiárias do PASP tenham acesso a oportunidades para gerar renda e garantir que sejam mais resilientes aos eventos climáticos a que estão expostas”, afirmou Lionel Langa.
A implementação do projecto estará particularmente concentrada em regiões semiáridas, onde a irregularidade das chuvas, os períodos prolongados de seca e a ocorrência de inundações têm colocado sob pressão a produção agrícola e as actividades económicas das populações.
Para o responsável, a coexistência destes riscos exige intervenções que ultrapassem a assistência imediata e permitam construir mecanismos duradouros de protecção dos meios de subsistência.
“Em áreas tão susceptíveis à seca, também vemos a ocorrência de inundações, pelo que somos chamados a uma intervenção muito mais acutilante para assegurar que realmente reforçamos a resiliência das nossas comunidades”, acrescentou.
Crianças entre as principais vítimas dos choques climáticos
A directora da Save the Children, Ilaria Manunza, chamou a atenção para as consequências sociais dos desastres naturais, sublinhando que os efeitos das alterações climáticas não se limitam à destruição de infra-estruturas ou à perda da produção agrícola.
Segundo a responsável, a exposição crescente das famílias a fenómenos extremos, incluindo os associados ao El Niño, torna indispensável o desenvolvimento de sistemas de protecção social capazes de antecipar situações de risco e reduzir os seus efeitos sobre as populações.
Manunza advertiu que, quando uma família perde a produção agrícola ou a habitação, as consequências podem estender-se à alimentação, à educação e ao bem-estar das crianças, agravando situações de vulnerabilidade já existentes.
“Quando uma família perde a sua colheita devido à seca ou vê a sua casa destruída por um ciclone, as crianças estão entre os mais afectados. A sua nutrição deteriora-se”, observou.
A responsável defendeu, por isso, uma resposta integrada que permita enfrentar simultaneamente os desafios económicos, sociais e ambientais das comunidades abrangidas.
Financiado pelo Fundo Verde para o Clima (Green Climate Fund), o projecto LINK deverá articular quatro áreas fundamentais: protecção social, adaptação às alterações climáticas, gestão do risco de desastres e desenvolvimento económico local.
Ilaria Manunza destacou igualmente a importância de envolver as próprias comunidades na identificação dos problemas e na definição das respostas, assegurando uma participação efectiva de mulheres, jovens, crianças e pessoas com deficiência.
Governo destaca contributo para as políticas sociais
Em representação do Ministério do Trabalho, Género e Acção Social, Gertrudes Jonas considerou que a implementação do LINK poderá contribuir para aprofundar o conhecimento sobre os impactos das alterações climáticas nas comunidades vulneráveis.
A responsável destacou também o potencial da iniciativa para fortalecer as políticas públicas de protecção social, num contexto em que os fenómenos climáticos extremos continuam a representar desafios para a estabilidade económica e social das famílias.
Com execução prevista até 2029, o projecto deverá combinar intervenções de inclusão socioeconómica, diversificação das fontes de rendimento e reforço da capacidade comunitária de adaptação.
Nos nove distritos seleccionados de Gaza, Manica e Tete, a Save the Children pretende, assim, contribuir para que milhares de famílias disponham de melhores condições para enfrentar secas, inundações e outros fenómenos climáticos extremos, reduzindo a dependência de respostas de emergência e fortalecendo a sua autonomia económica.
A iniciativa assenta numa prioridade central: permitir que as comunidades mais expostas aos riscos climáticos encontrem, na protecção social e nas oportunidades de geração de rendimento, instrumentos para construir condições de vida mais seguras e sustentáveis.
