As exportações de rubis moçambicanos registaram uma queda acentuada em 2024, recuando para cerca de 9,8 mil milhões de meticais (equivalentes a 153 milhões de dólares), de acordo com os dados do Banco de Moçambique. A Montepuez Ruby Mining (MRM), maior operadora do sector, aponta uma conjugação de factores que vai desde a insegurança em Cabo Delgado até à fragilidade dos mercados internacionais, como explicação para esta contracção.
Num ano especialmente marcado por instabilidade económica e social, a MRM enfrentou não apenas uma redução na produção de rubis de alta qualidade, mas também uma quebra acentuada na procura global — com destaque para o mercado chinês, tradicionalmente estratégico para estas gemas. A estes desafios somaram-se perturbações operacionais, mineração ilegal crescente e um clima de insegurança nas zonas mineiras.
Concessões sob tensão
Entre os dias 24 e 26 de Dezembro de 2024, a empresa foi forçada a suspender temporariamente as suas operações. Apesar de não ter sofrido ataques directos, a tensão pós-eleitoral gerou episódios de vandalismo e confrontos nas comunidades próximas, o que levou cerca de 500 trabalhadores a permanecer nas instalações por questões de segurança.
O agravamento da mineração clandestina, liderada por grupos organizados, tornou-se outro ponto crítico. As pedras retiradas dessas zonas ilegais são frequentemente exportadas por vias paralelas, drenando o circuito oficial e comprometendo a arrecadação fiscal.
Preços em queda nos leilões
Mesmo com o número de leilões mantido, os preços por quilate registaram uma descida significativa. A escassez de rubis premium — os mais valorizados — pesou directamente nas receitas. A MRM vinca que a conjuntura internacional, ainda fragilizada por crises económicas e geopolíticas, agravou a quebra da procura.
Investimento e modernização como resposta
Face ao abrandamento, a MRM avança com novos investimentos infra-estruturais, destacando-se a abertura de uma segunda unidade de processamento (PP2) prevista para ainda este ano. A nova instalação deverá triplicar a capacidade de produção, passando das actuais 200 para 600 toneladas por hora, o que permitirá escoar os stocks acumulados e explorar novas áreas com potencial inexplorado.
Apelo por reformas e combate ao mercado ilegal
A empresa reitera a necessidade urgente de reformas legislativas, defendendo a criminalização da exportação de rubis em bruto por entidades sem concessões legais. Pede também uma actuação mais robusta do Estado no combate ao contrabando, sublinhando que a protecção da cadeia de valor — da extracção à comercialização — é essencial para garantir benefícios reais às comunidades locais.
“É essencial garantir que os recursos naturais se traduzam em benefícios tangíveis para as comunidades. Para isso, é necessário controlar toda a cadeia de valor, da produção à comercialização”, afirma a MRM.
Para a mineradora, estabilidade social, desenvolvimento local e confiança dos investidores são peças-chave para que os rubis moçambicanos recuperem o seu prestígio no mercado global.
