Em 2022, numa entrevista exclusiva à Xonguila, Fábio Porchat revelou que queria vir a Moçambique, subir aos palcos do país e descobrir de perto um público que, mesmo a milhares de quilómetros do Brasil, já acompanhava o seu trabalho. Quatro anos depois, esse desejo deixa de ser apenas uma intenção: o humorista brasileiro estreia-se finalmente em Moçambique com o espectáculo “Histórias do Porchat” e já pensa em criar pontes com comediantes moçambicanos.

Naquela entrevista, Porchat falava com curiosidade sobre a dimensão que o humor brasileiro e, particularmente, o Porta dos Fundos tinham alcançado nos países africanos de língua portuguesa.

“O Brasil é um sucesso e a cultura de Moçambique, de Angola e Portugal, mas esses países consomem a cultura brasileira. Eu acho que a gente, inclusive, precisava de ouvir mais, ler mais e ver mais”, afirmou na altura.

Porchat recordava então a surpresa que sentira quando começou a apresentar-se fora do Brasil e percebeu que o seu trabalho atravessava fronteiras.

“A primeira vez que eu fui fazer show em Portugal, em 2013, eu fui apavorado, não sabia se eles iam gostar, se eles iam saber quem eu era, se eles iam entender o meu tipo de humor, e aí tomei um susto quando eu descobri que o Porta dos Fundos era muito assistido lá e eles adoravam.”

O fenómeno, perceberia depois, não terminava em Portugal.

“E cada vez mais eu vou tomando sustos e sabendo que, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde, tem pessoas que gostam, que assistem, que ouvem, e cada vez mais.”

Foi nesse contexto que, em 2022, o humorista deixou clara à Xonguila a vontade de transformar a audiência moçambicana, que conhecia sobretudo através dos números e das mensagens, num encontro frente a frente.

“Eu fico muito feliz de estar podendo falar agora com vocês, estar podendo falar com o público de Moçambique e de já botar na minha perspectiva Moçambique para fazer um show”, afirmou na entrevista.

Quatro anos depois, Porchat cumpre essa intenção.

A primeira apresentação acontece esta sexta-feira, em Nampula, seguindo-se Maputo, no sábado. Depois das duas actuações em território moçambicano, o humorista parte para Cabo Verde, onde tem espectáculos previstos na Praia e na ilha do Sal.

Mas a primeira passagem pelo país poderá produzir mais do que duas noites de humor.

Um dos criadores do Porta dos Fundos quer aproveitar a presença em Moçambique para aproximar-se dos artistas locais e explorar possibilidades de intercâmbio semelhantes às experiências que já desenvolveu com humoristas angolanos.

Em Angola, Porchat estabeleceu relações que acabaram por atravessar o Atlântico. Alguns artistas angolanos viajaram para o Brasil, acompanharam gravações, passaram pelo Porta dos Fundos, gravaram esquetes e participaram em projectos televisivos.

Agora, o humorista pretende aproximar Moçambique dessa rede de colaboração.

“Estamos sempre em contacto com o povo de Angola e agora com os moçambicanos, uma alegria”, afirmou.

Os primeiros contactos aconteceram praticamente à chegada a Maputo. Porchat encontrou-se com actores e comediantes moçambicanos e diz ter encontrado um ambiente que reforçou o interesse em futuras parcerias.

“Eu fiz um grande encontro assim que cheguei. Alguns dos comediantes, atores, estavam lá presentes. Eu tive uma conversa muito legal e a minha vontade é fazer esse intercâmbio também com Moçambique, que tem tanta gente bacana, talentosa e a fim de fazer comédia”, declarou, mostrando-se “muito animado” com a estreia no país.

Uma relação que começou à distância

A chegada a Moçambique fecha, assim, um círculo iniciado anos antes. Na conversa com a Xonguila, em 2022, Porchat já demonstrava interesse não apenas em actuar no país, mas também em compreender quem eram as pessoas que acompanhavam o seu trabalho deste lado do Índico.

“Agora a gente, né? Moçambique para fazer um show, porque no fim das contas, é muita gente, somos muitos falantes de português, e como as novelas da Globo — e o conteúdo da Globo sempre chegou, e até os da Record, agora com a Record na África —, também chegaram muito fortes para esse público de fora”, observou na altura.

Essa circulação de conteúdos brasileiros pelo espaço lusófono ajudou a tornar o Porta dos Fundos num fenómeno muito para além do Brasil. Criado em 2012, o grupo e produtora de humor reúne actualmente cerca de 19 milhões de subscritores no YouTube e mais de 9,5 mil milhões de visualizações na plataforma.

A popularidade internacional, contudo, trouxe a Porchat outra reflexão que já defendia em 2022: a circulação cultural entre os países de língua portuguesa não deveria acontecer apenas numa direcção.

“O Brasil não consome a cultura de Moçambique, de Angola e Portugal, mas esses países consomem a cultura brasileira. Eu acho que a gente, inclusive, precisava de ouvir mais, ler mais e ver mais”, afirmou então.

Quatro anos depois, o encontro com artistas moçambicanos e a vontade agora assumida de desenvolver intercâmbios dão uma nova dimensão àquela reflexão.

79 países dentro de um espectáculo

Para a estreia em Moçambique, Porchat traz “Histórias do Porchat”, espectáculo construído a partir das situações mais insólitas, divertidas e inesperadas que viveu durante as suas viagens pelo mundo.

“Já fui para 79 países e aí gosto de viver experiências das mais diferentes e reunir as experiências mais divertidas, mais malucas, num ‘show’ que já tem 500 mil pessoas já assistiram esse ‘show’ ao longo desses quatro anos que eu venho me apresentando”, contou.

Ao longo de quatro anos, cerca de 500 mil espectadores já assistiram ao espectáculo, que transforma episódios reais das viagens do humorista em narrativas de stand-up.

Há, porém, um território que Porchat decidiu deixar deliberadamente fora do palco: a política.

“É um show totalmente não político, não tem nada de polarizado, não tem nada controverso. É (…) só sobre viagens, exatamente porque eu ‘tava’ querendo que as pessoas voltassem a rir juntas, sem ter que pensar em preocupação nenhuma.”

“Acho que isso faz toda a diferença para um show de humor. As pessoas estão rindo de verdade e totalmente entregues, sem pensar em nada polémico.”

As viagens também lhe mostraram que o português pode funcionar como uma ponte humorística entre públicos separados por continentes.

“Todos os shows que eu fiz foram em português, mesmo nos continentes mais diversos, para brasileiros e portugueses especialmente, mas claro, também moçambicanos, angolanos e cabo-verdianos. E todos riem da mesma coisa. É muito impressionante.”

“São as mesmas em todos os lugares, porque as pessoas têm as mesmas referências e riem dos mesmos pontos”, acrescentou.

Agora chegou a vez de testar essa ligação diante de uma plateia moçambicana.

A viagem é também familiar. Porchat veio acompanhado por familiares e procura aproveitar os dias no país para descobrir um lugar que, durante anos, conheceu sobretudo através das referências de outras pessoas.

“Estamos conseguindo aproveitar e se divertir ao mesmo tempo. Então é muito gostoso poder estar viajando num país na África que fala português, que nos entende, que sabe do nosso gosto.”

Se em 2022 Moçambique estava ainda na lista de destinos que Porchat queria conhecer, quatro anos depois passou definitivamente para o seu mapa de palcos. E, antes mesmo de terminar a primeira visita, o brasileiro já fala em regresso.

“Moçambique é daqueles países que eu nem cheguei e já quero voltar (…). Então, a sensação que me dá é que eu voltaria a qualquer minuto”.