Presidente insiste na comparação entre Ucrânia e Moçambique. "Não há dois critérios para situações idênticas"

Matar saudades do povo, dar um puxão de orelhas diplomático e anunciar a posse do Governo. Eis o que Marcelo foi fazer a Maputo, onde promete voltar ainda antes de sair

Presidente insiste na comparação entre Ucrânia e Moçambique. "Não há dois critérios para situações idênticas"
A visita oficial do Presidente da República a Moçambique acabou como começou: com Marcelo Rebelo de Sousa a fazer uma comparação entre a invasão russa da Ucrânia e os ataques terroristas no Norte de Moçambique. “Dentro de cada Estado o poder político é soberano. Não há dois critérios para situações idênticas”, disse o chefe de Estado no encontro com a comunidade portuguesa, num hotel de Maputo do mesmo grupo do eco-resort que inaugurou na sexta-feira.

Um puxão de orelhas diplomático a Moçambique que se absteve na votação da Assembleia Geral da ONU que condenou a invasão da Ucrânia, mas pede apoio internacional para combater o terrorismo em Cabo Delgado? “Não! Só uma constatação de facto”, respondeu o Presidente ao Expresso, no fim desta visita de quatro dias em que, mais uma vez, tentou fazer relações internacionais o que considera ser a melhor arma: a empatia.

Já tinha deixado um outro recado para Moçambique, no balanço que fez da visita umas horas antes, depois de ter feito mais uma visita a uma unidade de treino em que a cooperação portuguesa e europeia ajudam os militares moçambicanos a preparem-se para combater em Cabo Delgado. “A vitória sobre o terrorismo é sempre uma vitória muito difícil porque não é só uma vitória militar”, avisou em declarações aos jornalistas, acrescentando que é preciso também garantir que a vitória é consolidada pela criação de condições económicas, financeiras e sociais.

O encontro com a comunidade portuguesa, ao fim do dia, serviu para Marcelo falar de vários assuntos, como recados para Moçambique e para Portugal. Sobre a guerra na Ucrânia — “muito perto das nossas fronteiras, porque as nossas fronteiras são das da NATO e da União Europeia” —, explicou que a mobilização dos portugueses para a ajuda aos refugiados se explica para “comunidade muito numerosa” de ucranianos que vive em Portugal “Esperamos que a paz venha mais depressa do que mais devagar”, disse Marcelo.

Sobre a pandemia, que espera que passe “a endemia” e não tenha novas ondas e que serviu de justificação para os problemas com os vistos e as quarentenas que geraram protestos da comunidade portuguesa em Moçambique nos últimos dois anos. “Foi um tempo que esperamos não seja vivido mais”, afirmou.

Sobre a cimeira bilateral Portugal-Moçambique que “é crucial” e que o Governo há-de marcar assim que tomar posse. “Falo por mim e pelo primeiro-ministro, não pela lista de governantes que só vou conhecer quando chegar a Lisboa”, rematou, fazendo lembrar que também foi nesta visita que anunciou que conta dar posse ao novo Executivo no dia 30.

Terminado o discurso, recomeçou uma tradição de que o Presidente tinha notórias saudades: selfies e beijinhos. Durante 1 hora e 10 minutos, Marcelo voltou a ser Marcelo. A meio, um português que trabalha na cooperação europeia trouxe-lhe um prato com pão, queijo e um copo de água. Pediu vinho em vez da água. Mas só tocou no prato e no copo quando a fila para as selfies acabou. Houve quem voltasse à fila mais do que uma vez; ora para tirar só com o Presidente, ora com o marido ou a mulher, ora com os colegas de trabalho ou com os amigos.

Marcelo, aliás, já tinha feito referência no discurso a que esta visita era também o seu regresso ao contacto direto com o povo. E, antes de sair, promete voltar. Em agosto, para a “reinauguração da catedral restaurada” de Quelimane, capital da província da Zambézia. O edifício do século XVIII tem vindo a ser recuperado e vai ser um centro cultural. Mas não ficará por aí, pois conta “percorrer outros caminhos em Moçambique, quem sabe se ir com o Presidente Nyusi a Cabo Delgado” e “certamente voltar a Maputo”.