Foi o primeiro piloto moçambicano a participar nesta competição, algo que é motivo de orgulho para o nosso país. Como define o Rali Dakar e o que significa participar naquele que é o maior evento mundial do desporto motorizado?
O Dakar é a maior corrida de todo-o-terreno do mundo. Não é só uma competição, é uma prova de superação humana. São 15 dias de pura adrenalina, com muito esforço físico, que temos que gerir. Essa gestão passa também por conseguirmos gerir as nossas emoções, frustrações, ansiedade, portanto, gerir a parte psicológica. Qualquer praticante de desporto motorizado off road sonha com o Dakar, e para mim foi um sonho que se tornou possível.
Num futuro próximo, acha possível existirem mais moçambicanos nesta competição?
Penso que sim. O mais difícil está feito, foi estarmos presentes pela primeira vez e abrir o caminho. Ficou muita experiência adquirida que podemos partilhar. Por outro lado, penso que com o meu projecto conseguimos profissionalizar um piloto/equipa e conseguimos patrocinadores, sem os quais seria muito mais difícil estarmos presentes. As empresas, neste momento, já acreditam que é possível ter retorno do investimento que fazem num atleta que faz as coisas bem feitas.
Como se gere a relação com a mota durante tantas horas de percurso? Quantas vezes teve de ser assistido?
Passamos cerca de 10/12 horas na mota por dia, durante 13 etapas. Necessitamos de estar muito focados diariamente para que não aconteça nenhum acidente. Além de uma preparação física grande, temos que estar muito fortes psicologicamente. Tive uma queda muito feia na 4ª etapa, onde parti duas costelas, perdi os sentidos por momentos, mas continuei a corrida. Seguiram-se dias muito penosos, mas a adrenalina e os medicamentos ajudaram. Nunca fui assistido em pista, felizmente. Tive, por duas vezes, que parar para assistir dois concorrentes, um que por razões mecânicas estava parado, e outro por acidente.
Quando é que percebeu que tinha jeito para conduzir?
Desde miúdo que sonhava em pilotar motas de cross e enduro, mas só aos 18 anos é que consegui comprar a primeira mota, os meus pais eram contra a ideia de eu andar de mota. Comecei a competir já com 23 anos, um pouco tarde para esta modalidade.
Qual é a sua moto de sonho?
A minha mota de sonho é a minha, a KTM RALLY REPLICA, onde os meus ídolos correm também. Sou fã da marca KTM.
Viveu algum episódio caricato em que pensou: “só mesmo no Dakar”?
O Dakar é uma competição longa, portanto cheia de episódios e peripécias, com imensas histórias para contar.
Qual a que mais o marcou no evento?
A que mais marcou foi a 11ª etapa, onde o motor da minha KTM cedeu. Fiquei 8 horas sozinho no deserto, porque não quis desistir, e esperei por assistência. Acabei por chegar às duas da manhã ao parque fechado. Entreguei a mota ao mecânico, o Carlos Damião, e ao Miguel Alberty – que, apesar de não mecânico, fez de tudo e foi um elemento preponderante para que eu terminasse este desafio –, que ficaram a trabalhar na mota. Após ter dormido duas horas, fui ver como estava a mota, mas ela continuava a apresentar o mesmo problema. Tomámos então a decisão de que, se queríamos terminar a corrida, teríamos que trocar de motor, e em uma hora mudámos o motor. Arranquei para a 12ª etapa com uma hora de atraso, mas, mesmo assim, ainda passámos 10 concorrentes em pista e conseguimos terminar. A alegria de ter terminado foi igual à do piloto que ganhou a prova, o Sam Sunderland da Gas Gas.
Houve alguma etapa que o fez ponderar se pretenderia repetir a participação? Alguma vez pensou em desistir?
Existem etapas em que, devido ao esforço, pensamos: o que estamos aqui a fazer? Pensamos que poderíamos estar em casa, no sofá, a acompanhar a competição na TV. Mas, logo que terminamos esse dia, ganhamos novo fôlego para enfrentarmos a etapa seguinte. O desafio é enorme, e a vontade de terminar também.
Qual é o seu piloto favorito?
Mário Patrão, meu amigo de longa data, que sempre lutou e acreditou que poderia fazer carreira no todo-o-terreno, mesmo não tendo condições na fase inicial da sua carreira, e Toby Price, piloto da KTM, por tudo o que passou na sua carreira. Ele que, após um grande acidente que teve, e em risco de ficar paraplégico, acabou por vencer o Dakar por duas vezes.
Pensa em entrar noutras competições? Que planos existem para os próximos tempos?
Estamos a montar o projecto desportivo para 2022. Depois de recuperar das mazelas trazidas, vamos reunir com os patrocinadores e algumas instituições para ver o que iremos fazer este ano. Pode haver novidades em breve.
Como gostaria de ser recordado?
Como alguém que contribuiu para o desenvolvimento do desporto motorizado no nosso país, quer na competição quer na representação.
