Há vozes que transcendem gerações e ajudam a compreender quem somos enquanto povo. Entre elas está Paulina Chiziane, uma das mais importantes referências da literatura africana contemporânea, cuja obra tem dado voz às complexidades da identidade, da cultura e da condição humana em Moçambique e no continente. Numa edição especial do Podcast Para Elas, Alima Sauji sentou-se com a escritora para uma conversa profunda sobre África, as suas raízes, os desafios da educação, a construção da identidade e o papel das novas gerações na preservação e valorização do património cultural africano. A iniciativa conta com o apoio do UBA Moçambique, que acredita no potencial do continente e na importância de promover espaços de diálogo, reflexão e valorização da nossa história e identidade. Juntos, convidam-nos a revisitar as nossas raízes e a reflectir sobre o que significa ser africano nos dias de hoje.

A senhora tem defendido a valorização da cultura africana num mundo cada vez mais globalizado. Como conciliar identidade cultural e globalização?
A globalização não significa que devemos abandonar quem somos. Pelo contrário, precisamos de fortalecer a nossa identidade. Quando participo em eventos internacionais, não me convidam para representar uma cultura genérica; convidam-me porque sou africana e porque querem ouvir a voz de África. Lembro-me de uma Feira Internacional do Livro em Frankfurt, onde um grupo de escritores africanos discutia temas universais. Uma criança levantou-se e disse que tinha ido ao painel para ouvir uma história africana, mas não estava a encontrar isso nas intervenções. Naquele momento contei uma história tradicional africana, e a reacção foi extraordinária. O mundo quer conhecer as nossas experiências, as nossas histórias e a nossa visão da vida. A globalização é como um bolo feito de muitos ingredientes diferentes. África é um desses ingredientes essenciais. Não devemos anular a nossa identidade, mas sim valorizá-la e partilhá-la com o mundo.

Muitas das suas obras abordam a resistência, a superação e a identidade. Que lições essas histórias podem transmitir às crianças e aos jovens africanos?
Acredito que os escritores e os artistas têm uma enorme responsabilidade na transmissão de valores e conhecimentos. Este é um trabalho de gerações: cada uma faz a sua parte e prepara o caminho para a próxima. Por isso valorizo muito o diálogo entre gerações. Recentemente recebi cerca de trinta crianças em minha casa para uma entrevista escolar. Foi uma experiência maravilhosa. Conversámos, partilhámos histórias e criámos um momento de aprendizagem mútua. Precisamos de abrir estes canais de comunicação para que os mais novos conheçam quem são e de onde vêm. Muitas vezes os livros apresentam cientistas apenas como homens brancos e heróis apenas como figuras masculinas, ignorando outras realidades. A ciência também está presente nos saberes africanos. Quando uma avó conhece plantas medicinais capazes de curar doenças, isso também é conhecimento científico. As nossas línguas, as nossas práticas e a nossa história carregam sabedoria que precisa de ser reconhecida e valorizada.

Qual é a importância da literatura na formação de crianças críticas, criativas e conscientes, sobretudo numa era dominada pelas tecnologias digitais?
Cada época tem as suas ferramentas, mas o livro não vai desaparecer. O digital tem o seu espaço, mas grande parte do que encontramos nesse universo nasceu primeiro da tradição oral e da escrita. As histórias que hoje vemos em filmes, desenhos animados ou plataformas digitais tiveram origem em narrativas transmitidas oralmente e depois registadas em livros. O livro continua a ser um instrumento fundamental para compreender o mundo. Aprender a ler e a escrever amplia a consciência humana. A tecnologia pode transformar os formatos, mas não elimina a necessidade da leitura. O conhecimento continuará sempre a precisar de palavras, ideias e histórias.

Neste Mês da Criança Africana, que mensagem gostaria de deixar às crianças do continente?
A mensagem que deixo às crianças é uma mensagem de memória, coragem e liberdade. Devemos conhecer a nossa história e reconhecer a herança daqueles que vieram antes de nós. Os nossos antepassados enfrentaram a escravatura, a colonização e inúmeras adversidades, mas deixaram-nos um legado de resistência, criatividade e esperança. Digo às crianças: “Ninguém vos dará liberdade sem luta, ninguém construirá os vossos sonhos por vós. É preciso acreditar em si mesmos, preservar a memória dos que lutaram antes e continuar a construir um futuro melhor”. Também lhes deixo um conselho simples: “Quando enfrentarem dificuldades, coloquem asas na alma. Sonhem, cantem, criem e nunca desistam. Toda a vida é uma luta por dias melhores, pela felicidade e pela prosperidade”.

Como vê o papel da literatura e da arte na formação das novas gerações?
A literatura e a arte são espaços privilegiados para semear valores, consciência e liberdade. Nem sempre as mensagens chegam através de discursos formais. Muitas vezes chegam através de uma história, de uma canção ou de um poema. Quando trabalhamos com crianças e jovens através da arte, estamos a plantar sementes que podem florescer ao longo da vida. É uma forma poderosa de preservar a identidade cultural e fortalecer o pensamento crítico.

Muito se fala sobre o papel da mulher africana no desenvolvimento do continente. Como analisa essa questão?
Às vezes fico cansada de ouvir perguntas sobre qual é o papel da mulher africana. África permaneceu de pé porque as mulheres existiram e resistiram. Temos referências extraordinárias na nossa história. Somos herdeiras de mulheres como Cleópatra, a Rainha de Sabá, Nzinga de Angola e Kimpa Vita. Foram líderes, estrategas, diplomatas, filósofas e figuras de dimensão universal. O problema é que muitas vezes desconhecemos a nossa própria história e passamos a procurar modelos de empoderamento exclusivamente fora de África. Precisamos redescobrir as nossas referências e reconhecer a grandeza das mulheres africanas ao longo dos séculos. A história de África é uma história de sobrevivência. As mulheres enfrentaram a escravatura, a separação das famílias, a violência e inúmeras formas de opressão, mas continuaram a garantir a continuidade da vida e das comunidades. Por isso, quando falamos de empoderamento, devemos recordar que as mulheres africanas já demonstraram, ao longo da história, uma extraordinária capacidade de liderança, resistência e transformação.

Que mensagem final deixa aos jovens africanos?
Gostaria de dizer aos jovens que conheçam a sua história. A África possui uma herança cultural, intelectual e humana extraordinária. Precisamos ler mais autores africanos, estudar os nossos pensadores, conhecer os nossos heróis e heroínas e fortalecer os laços entre os povos do continente. Não podemos continuar a viver como ilhas. A África precisa reencontrar-se consigo mesma para construir novas etapas de liberdade, desenvolvimento e prosperidade. Temos um passado comum, desafios semelhantes e um enorme potencial para criar um futuro melhor juntos.