Os dias sucedem-se num turbilhão de incerteza. A política tem um impacto muito mais profundo do que se imagina. Infiltra-se na televisão, nos jornais, nas redes sociais e nas conversas casuais, moldando, subtilmente mas de forma persistente, a maneira como encaramos o futuro.

A psicóloga clínica Joana Pinheiro, responsável pelos conteúdos de saúde mental da Sociedade Portuguesa de Saúde Pública, alerta, num artigo publicado na revista Visão, para os efeitos desta instabilidade no nosso bem-estar psicológico. E fá-lo de forma contundente:

"Imagine um ruído de fundo que nunca desaparece – não é ensurdecedor, mas está sempre lá, subtil e persistente."

A metáfora não poderia ser mais certeira. A crise política funciona como um zumbido constante, um fio invisível de tensão que, ainda que não provoque um choque imediato, desgasta-nos lentamente. A ciência ajuda a perceber porquê: o cérebro humano foi moldado pela evolução para identificar ameaças e procurar estabilidade. Quando essa estabilidade se desfaz, a amígdala – a estrutura cerebral responsável pelo medo – entra em alerta contínuo. O resultado? Ansiedade. Um sentimento de inquietação permanente, mesmo sem perigo iminente.

Mas o impacto vai além do medo difuso. Estudos mostram que períodos prolongados de crise aumentam os níveis de cortisol, a hormona do stress. O efeito? Problemas de sono, dificuldades de concentração, enfraquecimento do sistema imunitário. E uma exaustão mental que não decorre apenas dos eventos políticos em si, mas da sensação de impotência perante o que parece ser um ciclo vicioso de desilusão.

A desinformação só agrava este quadro. O cérebro humano tem um viés de negatividade – prestamos mais atenção às notícias alarmistas porque, para os nossos antepassados, ignorar um alerta podia significar a morte. Mas na era das fake news, este instinto natural torna-nos reféns de um ciclo interminável de medo e frustração. E é aqui que entra o populismo. Em momentos de cansaço e descrença, as soluções simples e inflamadas ganham terreno, explorando o desespero de quem apenas quer alguma previsibilidade.

Então, como sair deste ciclo?

Joana Pinheiro sugere algumas estratégias para minimizar os efeitos da instabilidade política na saúde mental:

✔ Escolher o que consumir – Nem toda a informação merece atenção. Privilegiar fontes credíveis reduz o impacto emocional das notícias.
✔ Fazer pausas informativas – O cérebro precisa de descanso. Evitar um consumo excessivo de notícias pode fazer toda a diferença.
✔ Focar-se no que está ao alcance – Em vez de se perder na impotência perante o caos global, pode agir a nível local, seja através do voto, do activismo ou do apoio à comunidade.
✔ Priorizar o bem-estar – Por mais que o país viva tempos turbulentos, é essencial encontrar momentos de lazer e estabilidade.

A instabilidade política pode ser inevitável. Mas a maneira como reagimos a ela não tem de ser. Em tempos de crise, preservar o equilíbrio emocional pode ser o ato de resistência mais poderoso de todos.