O turismo moçambicano acaba de receber um novo guião estratégico. Num momento em que o país procura alargar a base da sua economia e reduzir a dependência dos sectores extractivos, o Governo lançou oficialmente o Plano Director Nacional do Turismo, um instrumento que pretende reorganizar o sector, criar regras mais claras e abrir caminho à entrada de investimento privado.
A aposta é ambiciosa: transformar o turismo num verdadeiro motor de crescimento económico, geração de emprego e dinamização regional. Mas, para isso, o Executivo reconhece que não basta promover destinos ou exibir potencial. É preciso construir confiança, garantir previsibilidade e criar condições reais para que o capital privado avance.
A apresentação do plano teve lugar em Maputo e foi conduzida pelo Secretário de Estado do Turismo, Fredson Bacar, que enquadrou a iniciativa como uma base essencial para o desenvolvimento sustentável do sector.
“O objectivo é criar um ambiente de negócios mais previsível, organizado e atractivo, onde o sector privado possa investir com confiança”, declarou o governante.
No centro da estratégia está a definição clara de prioridades, acompanhadas por acções concretas, calendários e custos associados. A intenção é substituir abordagens dispersas por uma planificação mais rigorosa, capaz de orientar decisões, mobilizar recursos e dar coerência à intervenção pública e privada.
Segundo Fredson Bacar, o plano foi concebido precisamente para alinhar esforços entre o Estado e os operadores económicos, criando mecanismos de coordenação que permitam desbloquear o potencial turístico do país. A lógica é simples: sem organização, o sector perde ritmo; sem coordenação, perde eficácia.
O documento deverá também contribuir para uma melhor estruturação dos destinos turísticos, para a identificação de áreas prioritárias de intervenção e para a valorização do potencial local. A expectativa é que esse processo tenha impacto directo na criação de emprego, no aumento do rendimento das comunidades e na dinamização das economias locais.
Mas o próprio Governo admite que a atracção de investimento privado não depende apenas de intenções políticas ou de planos bem desenhados. Depende, antes de mais, de condições concretas no terreno. Por isso, o Plano Director destaca como prioridade o investimento em infra-estruturas críticas, desde estradas a sistemas de abastecimento de água, saneamento e segurança.
“O sector privado só investe onde existem condições. Cabe ao Estado garantir essas condições para que o investimento aconteça”, sublinhou Fredson Bacar.
A frase resume a filosofia do plano: o Estado não surge apenas como regulador, mas como facilitador e catalisador do investimento. Ou seja, cabe-lhe criar o ambiente mínimo de estabilidade e funcionalidade sem o qual o turismo dificilmente se expande de forma consistente.
A iniciativa conta com o apoio do Banco Mundial, que tem vindo a prestar assistência técnica e financeira tanto na elaboração de instrumentos orientadores como na implementação de projectos estruturantes. Esse envolvimento reforça a credibilidade do processo e aponta para uma tentativa de alinhar o desenvolvimento turístico moçambicano com práticas internacionais mais consolidadas.
Outro dos pontos centrais do plano é o reconhecimento de que o turismo não pode ser tratado como uma área isolada da governação. Trata-se de um sector transversal, dependente da articulação entre várias instituições e políticas públicas.
Foi precisamente esse ponto que Laurent Corthay, representante do Banco Mundial em Moçambique, quis sublinhar ao defender uma abordagem integrada.
“O turismo não é responsabilidade de um único ministério. É altamente multissectorial e requer a participação de sectores como ambiente, transportes, segurança, polícia e também autoridades locais”, afirmou.
A observação revela uma das maiores complexidades do sector: o seu sucesso depende de uma engrenagem institucional ampla, onde falhas num único ponto podem comprometer toda a cadeia de valor. Um destino turístico não vive apenas de paisagens ou recursos naturais. Precisa de acessos, ordem pública, serviços básicos, governação local funcional e articulação entre diferentes entidades do Estado.
É neste enquadramento que o Plano Director do Turismo surge como peça de uma estratégia mais vasta de transformação económica. Moçambique procura identificar sectores capazes de gerar emprego, captar divisas e promover desenvolvimento regional de forma mais sustentável. E, nesse quadro, o turismo aparece como uma das apostas mais promissoras.
A nova orientação assenta em três ideias-chave: organização, previsibilidade e melhoria do ambiente de negócios. O objectivo é converter potencial em resultados mensuráveis, criando um sector mais robusto, mais atractivo e mais capaz de responder às exigências do investimento.
Ainda assim, entre o desenho da estratégia e os resultados no terreno, existe uma distância que Moçambique conhece bem. O histórico das políticas públicas no país mostra que bons instrumentos e boas intenções nem sempre se traduzem em eficácia. Em muitos casos, a fragilidade não esteve na visão, mas na execução.
É precisamente aí que se jogará o destino deste plano. A sua relevância não será medida apenas pela qualidade técnica do documento, mas pela capacidade do Estado em executar o que promete, coordenar instituições, assegurar financiamento e transformar linhas estratégicas em mudanças palpáveis.
O Plano Director Nacional do Turismo representa, por isso, mais do que uma oportunidade para relançar o sector. Representa um teste decisivo à capacidade de Moçambique de passar do planeamento à acção e de converter visão estratégica em impacto económico real. Porque, no fim, será a execução — e não o anúncio — a determinar se o turismo poderá, de facto, tornar-se numa nova força da economia moçambicana.
