A venda de jornais em Maputo, outrora fonte segura de rendimento para centenas de ardinas, enfrenta um colapso acentuado. Em entrevistas à agência Lusa, os próprios vendedores apontam a ascensão da internet, o desinteresse generalizado pela leitura e o impacto persistente da pandemia como as principais causas deste declínio.
Jorge Francisco, 47 anos, é ardina há mais de três décadas no cruzamento das avenidas 25 de Setembro e Samora Machel. Lembra com nostalgia os tempos em que vendia facilmente 150 exemplares do Canal de Moçambique e outros tantos do diário Notícias. Hoje, passa dias sem conseguir vender um único jornal. “Tenho duas semanas consecutivas a vir aqui sem vender nenhum jornal, inclusivamente o Notícias, que é o jornal do povo”, lamenta.
O declínio acentuou-se durante a pandemia da covid-19. Para além da escassez económica e da redução drástica nas tiragens, circularam rumores de que o papel podia transmitir o vírus, afastando ainda mais os leitores. “Continuamos a lutar, mas outros jornais caíram”, recorda Jorge, que agora aposta na venda de serviços de carteira móvel para sobreviver.
Francisco Mutemba, 48 anos, confirma o declínio. Ardina desde 1992, vende hoje apenas uma fracção do que vendia antes da internet. “A internet está a matar o negócio de jornais, porque as pessoas apanham tudo na internet”, afirma. Antes vendia cem exemplares diários do Notícias e 70 do Magazine Independente. Hoje, sobrevive graças a alguns assinantes fiéis e a negócios paralelos.
Celso Zandamela, 29 anos, também sente o impacto. Ardina há 13 anos, atribui o problema menos à tecnologia e mais à ausência de hábitos de leitura, especialmente entre os mais jovens. “Actualmente, as pessoas já não lêem jornais nem livros. Só lembram quando há um concurso”, observa.
Do mesmo modo, Bento Benedito, de 34 anos, diz que os jornais “não têm saída” e que os jovens preferem consumir informação nos seus telemóveis. Antes da pandemia, vendia 100 jornais por dia. Agora, não chega a 10. “A internet está a matar, matou de verdade, só podemos adaptar-nos”, reconhece.
Todos os ardinas entrevistados são unânimes: o negócio de venda de jornais tornou-se insustentável. A maioria já procura outras formas de garantir o sustento. E, entre eles, mantém-se viva apenas a teimosia de quem insiste por paixão, não por lucro.
