Maputo Street Art é um projecto de um grupo de jovens artistas de várias disciplinas que se juntou para imortalizar a cultura de rua. O grupo foi fundado entre 2011 e 2012, ano em que surgiram as primeiras manifestações artísticas, e Afroivan, como artisticamente é conhecido, foi o mentor da iniciativa.
António Ivan Muhambe, de 35 anos de idade, solteiro, natural da Cidade das Acácias, artista e desenhador multidisciplinar, foi quem desenvolveu a ideia e criou o grupo. Em conversa com a Xonguila começou por explicar que “Maputo Street Art” foi o nome que, logo à priori, ganhou unanimidade pelo facto de o projecto ter nascido na capital do País.
“Tenho minhas raízes aqui, escolhi esse nome por fazer muito sentido a marcação do território da arte urbana. O pessoal de Maputo vai querer sempre sublinhar Maputo, o pessoal da Beira certamente fará o mesmo [para a sua cidade], e assim sucessivamente. Olhei para “Maputo” como a província que me viu a nascer, e para a “Street Art” como arte de rua, que é a disciplina em que tenho maior interesse e que aparece no meio da busca de liberdade da minha existência. Neste sentido, a criação do grupo surge como contraversão da cultura galeria-casa, casa-galeria”, explicou orgulhosamente Ivan Muhambe, como também é carinhosamente tratado.
O grupo do “Maputo Street Art” é composto por 12 membros, 7 homens e 5 mulheres, parte das quais já pintou murais, tendo outras participado em actividades como, por exemplo, a coordenação e elaboração de planos do grupo. “Este ano esperamos ter mais mulheres a pintar”, afirmou Afroivan, que acrescentou. “Temos mais homens que mulheres talvez porque a prática de arte de rua seja facilmente abraçada por rapazes, uma vez que eles trabalham frequentemente na rua, tendo mais familiaridade”.
Artistas de várias disciplinas, tais como fotografia, performance, teatro, vídeo, entre outras, fazem parte do grupo “Maputo Street Art”. “Fazemos arte de rua em outros contextos, porque ela não se limita a pintura, grafite ou artes visuais, falando especificamente dos murais. Temos dançarinos de rua, estátuas humanas, “squeite”, o pessoal que faz os “drifts” e truques de bicicletas. A ideia é todo mundo se juntar, fazendo-se a fusão do que cada um sabe fazer, e ocupar o espaço público”.
Na expectativa de projectar e eternizar o movimento “Maputo Street Art”, foi lançada, a 16 de Fevereiro do ano em curso, uma obra composta por textos e ilustrações, uma verdadeira colectânea de vários artistas. “A ideia é criar valor e visibilidade”, referiu a fonte, que, na mesma linha de abordagem, sublinhou: “A obra não é apenas de ilustrações. Têm no livro textos que explicam a transição entre as primeiras manifestações de arte urbana no contexto anterior e posterior à Independência, em particular a partir do ano 2000”.
“Com o livro queremos fazer um mapeamento de obras de vários artistas independentes, não só dos envolvidos no projecto “Maputo Street Art”, mas também de todos os que trabalham em indústrias culturais criativas conhecidos, assim como anónimos”.
Para Afroivan, a ideia é trazer todos numa única obra que as pessoas possam consultar e ficar a saber quem são os artistas que estão no activo no domínio da arte urbana. Fazendo uma radiografia geral e criando um tráfego de oportunidades, porque a arte urbana é muito mais voluntária do que comissionada, a partir do livro os artistas estarão a vender mais a sua imagem e a sua obra. “Queremos igualmente com este livro criar um estudo, uma pesquisa, uma valorização monetária, assim como cultural”.
Na óptica do fundador do movimento “Maputo Street Art”, documentar em forma de livro feitos artísticos especialmente de um contexto centro urbano e periferia é criar um equilíbrio entre eventos artísticos, uma vez que tudo acontece no centro, nunca na periferia, apesar de a maioria dos fazedores de arte serem pessoas provenientes dos bairros periféricos: “Quando conseguimos criar equilíbrio entre a parte escura e a clara da coisa, facilmente percebemos que não é necessário a pessoa que vive na periferia ter que se deslocar à cidade só para ver uma dança, um grafite, ouvir uma música ou coisa do género.”
Para a materialização deste projecto, que culmina com o lançamento da primeira edição do livro “Maputo Street Art”, segundo conta António Ivan Muhambe, a componente de pesquisa e mapeamento das imagens, desenhos, pinturas, conhecidas assim como não, ajudou bastante na feitura da colectânea recentemente lançada.
Apesar de alcançado um grande objectivo com o lançamento do livro, o fundador do “Maputo Street Art” não deixou de apontar um dos principais desafios encarados ao longo do trabalho, sobretudo ao nível da cidade: “Aguardar pela autorização dos chefes de quarteirão, a permissão dos residentes e a atribuição de licenças por parte do município, sem contar com aquela burocracia! Desenvolvemos mais trabalhos nos bairros porque temos uma interacção positiva com as pessoas. No bairro, podemos entrar numa casa gentilmente e pedir para pintar uma parede, temos muito apoio doméstico, enquanto na cidade temos que cumprir com as exigências de permissão de espaços. Já no fazer arte de rua nas zonas periféricas é mais a acessibilidade das obras”.
Em relação a planos futuros, Afroivan avançou que, ainda no decurso deste ano, sonha em fazer um festival de arte de rua no âmbito de arte urbana, dedicado não só a murais mas também a fotografia, instalação, projecção de filmes, vídeo, performance e teatro. “Pensamos fazer um festival móvel dentro dos bairros, onde as pessoas não precisam de sair pois o espectáculo vai até elas. Queremos investir num endereço físico onde as pessoas possam adquirir os nossos produtos, porque, para além de murais, fazemos sacolas, camisetas, quadros, entre outras manifestações artesanais e artísticas”.
António Ivan Muhambe afirmou, igualmente, que o livro foi feito com prazos apertados, portanto muitas disciplinas não foram incluídas nesta edição. “Esta obra é particularmente sobre murais da cidade de Maputo; vários outros murais espalhados pelas capitais provinciais não fazem parte deste trabalho. Na segunda edição, pensamos trazer uma versão mais ampla, com outros conteúdos, é por isso que estamos empenhados em fazer mais pesquisas.”
“Em tempos remotos tivemos ‘gangues’ que faziam arte de rua nos bairros e que actualmente desapareceram, queremos contar esse tipo de histórias. Queremos igualmente fazer um mapeamento mais amplo relativo não só a Maputo como também a outras regiões do país, porque nesta edição ativemo-nos apenas à Cidade das Acácias”, prosseguiu.
O livro é bilingue, a primeira parte em português, a segunda em inglês, e conta com 203 páginas. No dia 16 de Fevereiro do ano em curso, fez-se o lançamento oficial da obra em Maputo, no Centro Cultural Moçambique – Alemanha. Já no dia 3 de Março foi a vez de ser lançada na cidade da Beira. O livro encontra-se disponível nas principais livrarias das duas cidades, e também pode ser adquirido em Portugal. Contou com o apoio da embaixada da Espanha, através da Cooperação Espanhola para o Desenvolvimento, à qual coube fazer a impressão.
