As mulheres estão a assumir o comando silencioso da economia moçambicana. Sem grandes anúncios, mas com impacto crescente, lideram hoje cerca de 60% das pequenas e médias empresas do país, um dado revelado pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique que confirma uma transformação estrutural no coração da economia real.
Este protagonismo feminino vai muito além da simples presença empresarial. Representa uma mudança profunda na dinâmica económica nacional, onde as mulheres emergem como motor da geração de rendimento, criação de emprego e dinamização dos mercados locais.
Num país onde as PME constituem a espinha dorsal do tecido produtivo, a predominância feminina neste segmento confere às mulheres um papel estratégico no crescimento económico. A economia moçambicana, cada vez mais, tem rosto feminino.
Empreendedoras expandem influência além das empresas
Mas a influência das mulheres não se limita à gestão de negócios. Existe uma dimensão menos visível, porém decisiva: a chamada diplomacia económica.
Durante a 2.ª Conferência “Mulher Nota 20”, Teresa Muenda destacou que muitas mulheres actuam como facilitadoras de relações comerciais, criando redes de negócio e promovendo trocas económicas para além dos circuitos formais.
Trata-se de uma economia que se constrói através da confiança, da proximidade e das redes sociais — um modelo que complementa os mecanismos tradicionais de mercado e reforça a resiliência do tecido empresarial.
Entre liderança e vulnerabilidade
Apesar do protagonismo crescente, a realidade feminina na economia moçambicana permanece marcada por contrastes.
Se, por um lado, as mulheres lideram a maioria das PME, por outro continuam concentradas em sectores de baixa produtividade, como agricultura informal, comércio de subsistência e trabalho doméstico.
Esta concentração limita o impacto económico do empreendedorismo feminino, dificultando a expansão dos negócios e a geração de maior valor acrescentado. A liderança existe, mas a capacidade de escalar continua condicionada.
Financiamento continua a ser barreira crítica
O acesso limitado ao financiamento surge como o principal obstáculo ao crescimento das empresas lideradas por mulheres. Sem capital, a expansão torna-se difícil e a competitividade reduz-se.
A este desafio juntam-se barreiras culturais e institucionais que ainda dificultam a presença feminina em posições de liderança e tomada de decisão.
Outro factor estrutural apontado é a violência baseada no género, considerada um entrave directo à participação económica feminina, afectando tanto a estabilidade pessoal como o desenvolvimento profissional.
Iniciativas existem, mas impacto ainda é insuficiente
No plano institucional, a CTA tem vindo a promover iniciativas de capacitação, acesso ao financiamento e promoção internacional de negócios liderados por mulheres.
Missões empresariais, programas de formação e facilitação de acesso a mercados externos fazem parte dessas acções, que representam avanços importantes na integração económica feminina.
Contudo, a dimensão dessas iniciativas ainda não acompanha a magnitude do desafio, deixando grande parte do potencial feminino por explorar.
O desafio: transformar liderança em impacto estrutural
O facto de as mulheres liderarem a maioria das PME levanta uma questão central: como converter este protagonismo em impacto económico sistémico e sustentável?
A resposta passa por reformas estruturais, maior igualdade de oportunidades, acesso facilitado ao financiamento e políticas públicas consistentes que promovam ambientes de negócio mais inclusivos.
Sem estas mudanças, o potencial económico feminino continuará subaproveitado, limitando o crescimento inclusivo do país.
Empoderamento feminino como motor do futuro
Os números são claros: o desenvolvimento económico de Moçambique está cada vez mais ligado ao empoderamento feminino.
Mais do que uma questão social, trata-se de uma necessidade económica.
A plena integração das mulheres na economia poderá determinar o ritmo e a sustentabilidade do crescimento moçambicano, num contexto em que inclusão e produtividade são factores decisivos para o futuro do país.
