No bairro de Natikiri, nos arredores da cidade de Nampula, o som dos martelos e das serras eléctricas acompanha uma transformação discreta, mas simbólica. Aos 32 anos, Adelaide Alfredo tornou-se um rosto de coragem e liderança ao abrir a sua própria carpintaria — num espaço tradicionalmente reservado aos homens, ela não só marca presença como emprega mais de dez deles.
Em entrevista concedida ao Jornal Ikweli, Adelaide conta que cresceu rodeada pelo ofício. Desde pequena, observava de perto o trabalho com madeira, sentindo-se fascinada pelas formas e utilidades que um simples pedaço de tábua podia ganhar. No entanto, desde cedo também ouviu que “carpintaria é trabalho de homem”. Esse preconceito, enraizado na cultura local, longe de a desencorajar, serviu-lhe de impulso.
Determinada a seguir o seu sonho, aprendeu as técnicas, desafiou as expectativas e criou um espaço onde hoje se constrói muito mais do que móveis: constrói-se inclusão, dignidade e esperança. A oficina, instalada em Natikiri, tem garantido o sustento de várias famílias e tornado Adelaide num exemplo para muitas mulheres da comunidade.
Orgulhosa do percurso que trilhou, afirma que o que edificou vai muito além da madeira e dos pregos: “Construi algo que muitos achavam impossível”, declarou ao Ikweli. A sua história é, hoje, uma declaração viva de que o talento e a ambição não têm género.
