Moçambique está a reforçar a aproximação estratégica à Índia, numa iniciativa destinada a acelerar a modernização da rede ferroviária nacional e encontrar soluções tecnológicas para os crescentes desafios da mobilidade urbana. O Governo pretende mobilizar conhecimento técnico, equipamentos e investimentos que permitam melhorar a eficiência dos transportes públicos e ampliar a capacidade de circulação de passageiros e mercadorias.

A iniciativa ganhou expressão em Nova Deli, onde o ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, manteve encontros com representantes da Delhi Metro International e da empresa indiana de engenharia ferroviária Rites, à margem da conferência internacional Sagarmanthan – Great Oceans Dialogue.

Segundo um comunicado do Ministério dos Transportes e Logística (MTL), citado pela agência Lusa, as reuniões concentraram-se na identificação de oportunidades de cooperação técnica e investimento, com particular incidência no desenvolvimento dos sistemas de transporte urbano e no reforço da capacidade ferroviária moçambicana.

No encontro com a Delhi Metro International, João Matlombe tomou conhecimento da experiência indiana na gestão, expansão e modernização de redes metropolitanas de transporte, incluindo soluções tecnológicas desenvolvidas para responder às exigências de grandes centros urbanos.

Para as autoridades moçambicanas, a experiência da Índia poderá constituir uma referência importante na procura de respostas para os problemas de mobilidade nas principais cidades do país, onde o crescimento populacional e o aumento da procura por transportes colectivos colocam desafios cada vez maiores à capacidade dos sistemas existentes.

A intenção passa por identificar modelos e tecnologias susceptíveis de adaptação à realidade nacional, numa perspectiva de melhoria da circulação urbana e da qualidade dos serviços prestados à população.

Índia admite adaptar locomotivas às necessidades da África Austral

A componente ferroviária ocupou igualmente um lugar central na agenda do ministro em Nova Deli. João Matlombe reuniu-se com responsáveis da Rites, empresa indiana especializada em engenharia e consultoria ferroviária, que mantém uma relação de cooperação de longa data com os Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM).

Esta parceria tem abrangido diferentes áreas, desde a formação de quadros e assistência técnica até à prestação de serviços de consultoria e fornecimento de material circulante, incluindo locomotivas, vagões de mercadorias, automotoras e carruagens destinadas ao transporte de passageiros.

Durante as conversações, os representantes indianos apresentaram os progressos alcançados pelo país no sector ferroviário, destacando a expansão da tracção eléctrica e os investimentos na modernização das infra-estruturas.

Um dos aspectos relevantes dos encontros foi a manifestação de interesse, por parte de empresas e autoridades indianas, em adaptar uma parcela da produção de locomotivas às especificações técnicas das redes ferroviárias da África Austral.

A possibilidade surge num contexto em que vários países da região procuram renovar as suas frotas e aumentar a capacidade de transporte ferroviário, criando oportunidades para o fornecimento de equipamentos ajustados às características das infra-estruturas existentes.

A aproximação entre Moçambique e a indústria ferroviária indiana assenta numa experiência de cooperação já consolidada.

Pouco mais de um ano antes destes encontros, a Rites havia concluído a entrega de dez locomotivas diesel-eléctricas aos CFM, no âmbito de um contrato avaliado em 32,5 milhões de euros.

Na ocasião, João Matlombe apresentou a aquisição como parte de um investimento destinado a tornar o sistema ferro-portuário moçambicano moderno, eficiente, competitivo e preparado para responder às necessidades da economia nacional e regional.

O governante destacou igualmente a posição geográfica estratégica de Moçambique, considerando que o investimento em infra-estruturas, acompanhado por uma gestão eficiente, poderá reforçar a importância do país enquanto plataforma logística para a África Austral.

Governo prevê investir 190 milhões de euros até 2030

A procura de novas parcerias internacionais enquadra-se num programa mais amplo de modernização do sector ferroviário, através do qual o Governo moçambicano prevê investir aproximadamente 190 milhões de euros até 2030.

Os recursos deverão ser direccionados para o aumento da capacidade das linhas ferroviárias e para a aquisição de equipamentos destinados ao transporte de passageiros e mercadorias.

Entre as intervenções previstas encontra-se a conclusão da duplicação dos 25 quilómetros ainda em falta na linha de Ressano Garcia, uma das principais ligações ferroviárias entre Moçambique e a África do Sul.

O programa contempla igualmente a aquisição de mais de 30 carruagens de passageiros, 250 vagões de mercadorias e pelo menos 15 locomotivas de linha, equipamentos considerados necessários para reforçar a capacidade operacional da rede.

De acordo com documentos governamentais, a concretização destes investimentos, associada ao reforço da frota e à entrada em pleno funcionamento das infra-estruturas reabilitadas ou ampliadas, poderá contribuir para um crescimento de 26,6% no tráfego ferroviário.

As projecções abrangem intervenções nas linhas de Ressano Garcia, Matola Gare-Moamba e Machipanda, corredores com importância para a circulação de passageiros e o escoamento de mercadorias.

Neste contexto, a cooperação com a Índia poderá assumir um papel relevante na concretização dos objectivos nacionais, sobretudo através da transferência de conhecimento especializado, do acesso a novas tecnologias e do fornecimento de material ferroviário adaptado às necessidades do país.

Apesar das perspectivas abertas pelos encontros em Nova Deli, o Ministério dos Transportes e Logística ainda não anunciou novos contratos, compromissos financeiros ou investimentos concretos resultantes das conversações.

Por enquanto, a iniciativa representa uma etapa de aproximação institucional e empresarial, numa altura em que Moçambique procura transformar o potencial da sua localização geográfica numa vantagem logística sustentada por infra-estruturas ferroviárias mais modernas, eficientes e competitivas.