O Governo moçambicano prepara uma nova aposta na transformação do sector agrário, com a criação de um programa destinado a incubar, anualmente, pelo menos mil empreendedores do agronegócio. A iniciativa, cujo lançamento está previsto para ainda este ano, pretende romper com a lógica da agricultura de subsistência e abrir caminho a uma produção mais competitiva, capaz de gerar rendimento, emprego e oportunidades de negócio.
A ambição foi anunciada pelo ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, durante a abertura do Seminário sobre Desenvolvimento do Agronegócio em Moçambique, realizado na cidade de Maputo.
“A nossa meta é que, no mínimo, mil empreendedores sejam incubados por ano. É o mínimo. Mas temos condições para mais”, declarou o governante, citado pela Agência de Informação de Moçambique.
O programa deverá mobilizar não apenas instituições públicas, mas também empresas privadas e associações de produtores, numa estratégia que procura aproximar os agricultores das exigências do mercado e proporcionar-lhes instrumentos para desenvolver actividades economicamente sustentáveis.
Mais do que criar mecanismos de apoio financeiro, o Executivo pretende investir na formação técnica, no acompanhamento empresarial e no desenvolvimento de competências de gestão. A perspectiva, segundo o ministro, é preparar empreendedores capazes de identificar oportunidades, organizar a produção e participar de forma mais activa nas diferentes cadeias de valor agrícola.
Para Roberto Albino, a transformação da agricultura moçambicana não poderá depender exclusivamente da disponibilização de recursos financeiros. Exige, igualmente, conhecimentos especializados e capacidade de gestão que permitam aos produtores converter as suas actividades em negócios duradouros.
No capítulo do financiamento, o governante revelou que estão em curso esforços conjuntos com a GAPI, instituição financeira de desenvolvimento, para ampliar o acesso dos produtores ao crédito agrícola. A estratégia contempla também a participação dos bancos comerciais, considerados importantes para o fortalecimento dos mecanismos de financiamento do sector.
De acordo com o ministro, a cooperação já permitiu financiar mais de 400 operações durante o primeiro ano, proporcionando apoio a produtores empenhados na expansão e consolidação das respectivas actividades.
Cooperativas especializadas ganham espaço na estratégia agrícola
Outro eixo da transformação defendida pelo Governo passa pela reorganização do movimento associativo, com particular atenção à criação de cooperativas especializadas em diferentes segmentos da produção agrícola.
Roberto Albino considera que os modelos associativos demasiado abrangentes nem sempre respondem às necessidades concretas dos produtores, defendendo estruturas organizadas em função das características e exigências de cada actividade.
“Temos que falar de associativismo na especialidade”, afirmou o ministro, referindo sectores como a produção de sementes, a horticultura, o cultivo de arroz, a mecanização agrícola e o fornecimento de insumos.
A orientação governamental aponta, assim, para a constituição de cooperativas com uma vocação essencialmente económica, nas quais produtores com interesses semelhantes possam reunir capacidades, partilhar equipamentos, trocar conhecimentos e explorar oportunidades comerciais.
A especialização é apresentada como um caminho para melhorar a organização da produção e reforçar a capacidade dos agricultores de responder às exigências do mercado.
Produtores alertam para obstáculos no acesso ao financiamento
Apesar das perspectivas apresentadas pelo Executivo, os representantes dos produtores chamaram a atenção para dificuldades que continuam a limitar o crescimento dos negócios agrícolas no país.
O presidente da Federação Nacional das Associações de Camponeses e Produtores Agrários (FENAGRI), Ângelo Cumaio, apontou a burocracia e as restrições no acesso ao crédito como dois dos principais constrangimentos enfrentados pelos agricultores.
Na sua intervenção, defendeu o aprofundamento do diálogo entre o Governo e os actores do sector agrário, considerando fundamental encontrar soluções que facilitem o financiamento e criem um ambiente mais favorável ao investimento e ao desenvolvimento das actividades produtivas.
A necessidade de fortalecer as organizações de produtores foi igualmente destacada pelo embaixador de Portugal em Moçambique, Jorge Monteiro, que sublinhou a importância de melhorar as condições de acesso ao crédito, à tecnologia, à informação e aos mercados.
“Precisamos de um associativismo moderno, profissional e orientado para resultados”, afirmou o diplomata.
Na perspectiva de Jorge Monteiro, a organização dos pequenos agricultores constitui um elemento importante para que a produção deixe de estar concentrada na subsistência e evolua para actividades com maior capacidade de gerar valor acrescentado, criar postos de trabalho e explorar oportunidades de exportação.
O Seminário sobre Desenvolvimento do Agronegócio em Moçambique juntou representantes governamentais, operadores privados e parceiros de cooperação, num debate centrado nos desafios do financiamento, na organização dos produtores e nas condições necessárias para impulsionar o desenvolvimento empresarial da agricultura nacional.
A meta de incubar pelo menos mil empreendedores por ano coloca agora em evidência o desafio de transformar as intenções anunciadas em mecanismos concretos de formação, financiamento e acompanhamento, capazes de permitir que mais produtores moçambicanos passem da agricultura de subsistência para negócios agrícolas sustentáveis.
