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Moçambique enfrenta o pior surto de cólera em dez anos, agravado pelos efeitos devastadores do Ciclone Freddy, com a província da Zambézia a sofrer maior impacto e quase um milhão de pessoas clamando por ajuda. As inundações e a destruição provocadas pelas intensas chuvas e ventos acentuaram um surto de cólera já existente. Desde Setembro do ano passado, a doença já ceifou a vida de 124 moçambicanos.
Gonçalo Órfão, coordenador da Cruz Vermelha, estabelece um paralelo entre a situação actual e as consequências do Ciclone Idai em 2019, ressaltando as semelhanças entre os dois eventos catastróficos. No entanto, a actual cobertura mediática é escassa, afectando a solidariedade internacional. Há enormes dificuldades em atender a todas as necessidades da população, já que os recursos são limitados e as autoridades têm de priorizar os casos mais graves e prestar auxílio "aos que mais precisam".
Actualmente, 40 organizações actuam no terreno, prestando ajuda humanitária e socorro de emergência, incluindo organizações não governamentais internacionais. Contudo, são necessários 125 milhões de euros para sustentar a ajuda de emergência no local. Gonçalo Órfão antevê uma recuperação árdua e prolongada, especialmente nas áreas rurais, onde as condições de subsistência se deterioraram e as famílias se tornaram extremamente vulneráveis devido à destruição das terras cultivadas e à interrupção do ciclo alimentar.
A Cruz Vermelha Internacional tem concentrado esforços nos distritos mais rurais e já distribuiu mais de 300 kits de abrigo familiar na semana passada, contendo lonas, cordas, baldes e garrafas do popular purificador de água Certeza. Gonçalo Órfão explica que a limitação natural dos recursos obriga a organização a planear cuidadosamente e intervir onde a resposta é mais rápida.
A Federação Internacional da Cruz Vermelha opera com uma equipa enxuta, composta por 280 voluntários moçambicanos e alguns especialistas internacionais, incluindo um especialista uruguaio responsável pelas operações e membros das Cruz Vermelha belga e francesa. Uma enfermeira especializada em saúde pública assessora a equipa no terreno, em Maputo.
Embora o número de casos de cólera continue a crescer e ainda seja preocupante, verifica-se uma tendência decrescente, fruto de uma campanha de vacinação que já alcançou 80% da população e da recuperação gradual do abastecimento de água. A situação, apesar de desafiadora, começa a apresentar sinais de melhoria.
