Em menos de uma década, Moçambique deu um salto sem precedentes no que toca à inclusão financeira digital: a taxa de adultos com contas em Instituições de Moeda Electrónica (IME) passou de 28,6% em 2015 para impressionantes 109,8% no primeiro trimestre de 2025. Os números, divulgados esta quarta-feira pela ministra das Finanças, Carla Loveira, revelam que o país atingiu a marca simbólica dos 100% de cobertura da população adulta com contas digitais, apesar de ainda existirem 26 distritos sem qualquer agência bancária.

“A moeda electrónica digital revelou-se como sendo o motor da dinamização da inclusão financeira em Moçambique”, afirmou a ministra, durante o lançamento oficial da nova Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031, em Maputo. Loveira destacou o papel central das carteiras digitais, operadas pelas três companhias de telecomunicações móveis do país, que permitem hoje transferências de dinheiro e pagamento de serviços via telemóvel, mesmo em zonas recônditas.

Segundo o Banco de Moçambique, o número total de contas bancárias no país aumentou de 5,6 milhões em 2023 para cerca de 6,2 milhões no final de 2024. Contudo, o crescimento das IME foi significativamente superior, atingindo os 19,8 milhões de contas — quase três milhões a mais em apenas um ano.

No balanço da anterior estratégia, que vigorou entre 2016 e 2022, a ministra assinalou avanços: 128 dos 154 distritos moçambicanos já possuem, pelo menos, uma agência bancária, um crescimento de 68% face a 2015. No entanto, o ritmo do acesso bancário formal permaneceu lento: a percentagem de adultos com conta bancária subiu apenas de 31,1% para 32,3% entre 2015 e o início de 2025 — muito aquém da meta de 60% prevista na estratégia anterior.

A análise económica revelou ainda que a taxa de poupança financeira (medida pelo rácio de depósitos sobre o PIB) registou um ligeiro aumento, de 47,6% para 48,8%. Já o rácio de intermediação financeira caiu de forma “significativa”, descendo de 36,4% em 2015 para 17,1% em 2025. “Esta dinâmica ilustra o desafio que se impõe à banca de melhorar a sua contribuição no financiamento à economia”, sublinhou Loveira.

A nova estratégia, em vigor até 2031, assenta em quatro eixos: alargamento do acesso a serviços financeiros, promoção dos pagamentos digitais, reforço da educação financeira e expansão dos seguros e financiamento verde. Uma das principais metas é garantir que, até 2031, 60% da população adulta tenha conta bancária formal, e que 30% desse universo possua crédito junto de uma instituição financeira.

O Governo pretende ainda atacar entraves estruturais, como os altos custos dos serviços bancários e o financiamento das Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPMEs), que representam 98,1% do tecido empresarial do país. A inclusão do sector informal e das famílias de baixo rendimento é outro desafio assumido, num contexto em que a estabilidade macroeconómica, com inflação e taxas de câmbio controladas, é apontada como base essencial para o sucesso da estratégia.