O Governo moçambicano está a avançar com a instalação de oito novos postos de abastecimento de gás natural veicular nas três províncias do sul do país, numa tentativa de reduzir a dependência dos combustíveis tradicionais e encontrar alternativas à crise que tem condicionado os transportes, a agricultura e a vida das famílias. As infra-estruturas deverão entrar em funcionamento em 2027.

O anúncio foi feito esta quarta-feira, 4 de Novembro, pelo ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estêvão Pale, durante uma sessão parlamentar marcada por questões dos deputados sobre as dificuldades de abastecimento de gasolina e gasóleo no país.

Segundo o governante, o projecto integra uma estratégia de expansão do acesso ao gás natural veicular, sustentada pelo financiamento de novas infra-estruturas de abastecimento. Dos oito postos previstos, três serão instalados na cidade e província de Maputo, dois em Gaza e outros três em Inhambane.

“O Governo está a promover o alargamento do acesso ao gás natural veicular, através da implementação de um programa estruturado que inclui o financiamento da expansão das infraestruturas de abastecimento de gás veicular”, explicou Estêvão Pale.

A iniciativa contempla igualmente o reforço da utilização de autocarros movidos a gás natural no transporte público, numa aposta destinada a diversificar as fontes de energia utilizadas no sector dos transportes e reduzir a pressão sobre o consumo de combustíveis convencionais.

Contudo, o ministro reconheceu que a expansão da rede de abastecimento de gás natural não constitui uma resposta imediata às dificuldades que o país enfrenta.

“Importa, contudo, esclarecer que estas alternativas não resolvem imediatamente os atuais constrangimentos do abastecimento”, advertiu.

Governo reforça medidas para garantir abastecimento

Enquanto prepara soluções energéticas de médio prazo, o Executivo procura conter os efeitos de uma crise que continua a afectar diferentes sectores da economia, com consequências directas para as famílias, os transportadores e os produtores agrícolas.

Entre as medidas adoptadas figura a proibição temporária da reexportação de combustíveis destinados ao consumo interno, mantendo-se, contudo, autorizado o trânsito regular de produtos petrolíferos para outros países.

O Governo decidiu também reforçar a capacidade operacional da Petróleos de Moçambique (Petromoc), permitindo à empresa disponibilizar quantidades adicionais de combustíveis e abastecer operadores retalhistas, mesmo quando estes não possuam contratos prévios com outros distribuidores.

“Reforçamos a capacidade operacional da nossa empresa Petromoc, permitindo-lhe disponibilizar volumes adicionais de combustíveis e abastecer os operadores retalhistas, independentemente das existências de contratos prévios com outros distribuidores”, afirmou o ministro.

Paralelamente, foram intensificadas as operações de carregamento nos quatro principais terminais de combustíveis do país, localizados em Maputo, Beira, Nacala e Pemba.

De acordo com Estêvão Pale, estas infra-estruturas poderão prolongar os horários de funcionamento e realizar operações aos sábados, sempre que necessário, para acelerar a distribuição e minimizar as dificuldades de abastecimento.

Crise provocou filas e mobilização policial

A escassez de combustíveis atingiu momentos particularmente críticos entre Abril e Maio, quando dezenas de viaturas se concentraram em filas junto dos postos que ainda dispunham de gasolina e gasóleo.

A pressão sobre os estabelecimentos obrigou ao reforço da presença da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), da Polícia da República de Moçambique, para garantir a segurança e controlar a afluência de automobilistas, motociclistas e cidadãos que procuravam adquirir combustível em recipientes.

Na altura, o Governo associou parte das dificuldades ao agravamento da instabilidade no Médio Oriente, região com um peso determinante no fornecimento de produtos petrolíferos ao mercado moçambicano.

Segundo as autoridades, aproximadamente 80% dos combustíveis importados por Moçambique tinham origem naquela região e transitavam pelo estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do comércio internacional de energia.

O impacto do conflito nos mercados internacionais e nas cadeias de abastecimento agravou, assim, a vulnerabilidade de um país fortemente dependente das importações de combustíveis.

A esta pressão externa juntaram-se dificuldades internas de financiamento. O Banco de Moçambique reconheceu constrangimentos no acesso a divisas destinadas à importação de produtos petrolíferos, situação associada à alegada falta de capacidade financeira de algumas empresas que operam no sector.

Importações ultrapassaram 236 milhões de dólares

Apesar das dificuldades no abastecimento, os dados do banco central mostram uma ligeira redução da factura das importações de combustíveis durante os primeiros três meses de 2026.

No primeiro trimestre, Moçambique gastou 236,4 milhões de dólares, equivalentes a aproximadamente 203,5 milhões de euros, na aquisição de combustíveis no mercado internacional.

O montante representa uma diminuição de 1,4% relativamente ao período homólogo de 2025, quando as importações atingiram 239,6 milhões de dólares, correspondentes a cerca de 206,3 milhões de euros.

Entretanto, a crise de abastecimento, associada ao aumento das cotações internacionais, levou o Governo a rever, em Maio, os preços administrados dos combustíveis.

A decisão traduziu-se num agravamento de 45,5% no preço do gasóleo e de 12,1% no da gasolina, aumentando os custos suportados pelos consumidores e pelos sectores económicos dependentes destes produtos.

É neste contexto que o Executivo procura acelerar a diversificação energética, apostando no gás natural veicular como uma das alternativas para o sector dos transportes.

Embora os oito novos postos representem um passo na expansão da rede de abastecimento, a sua entrada em funcionamento está prevista apenas para 2027, deixando o país, no imediato, dependente das medidas de emergência destinadas a assegurar a disponibilidade de combustíveis no mercado nacional.