O futuro da ciência africana começa a desenhar-se em Maputo com uma ambição clara: inverter narrativas, desafiar preconceitos e afirmar o conhecimento produzido no continente. Moçambique recebe, esta semana, mais de mil jovens investigadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), num encontro que promete marcar uma viragem no modo como a ciência africana é pensada e projectada no mundo.

A IV Conferência de Jovens Investigadores da CPLP arranca com um número recorde de participantes — cerca de 1.200 jovens — superando largamente as edições anteriores, realizadas em Lisboa e Luanda. No centro deste crescimento está uma convicção firme: a investigação feita localmente tem valor científico e deve ocupar o seu espaço no panorama internacional.

“Queremos fomentar a ciência pensando que a pesquisa local também é ciência”, afirmou Cristina Molares D’Abreu, presidente da Associação Encontro de Jovens Investigadores da CPLP sobre África, durante a apresentação do evento em Maputo. A responsável sublinhou a necessidade de criar massa crítica entre os jovens e estimular um pensamento científico sólido, capaz de responder aos desafios do continente.

Mais do que um simples encontro académico, a conferência assume-se como um espaço de afirmação. O objectivo é claro: combater a visão periférica que ainda persiste sobre a investigação nos países africanos de língua portuguesa e valorizar a produção científica local como motor de desenvolvimento.

Durante quatro dias, o Centro Cultural Moçambique-China acolhe debates, apresentações e trocas de experiências entre jovens investigadores e especialistas internacionais. A iniciativa promove o contacto directo com peritos oriundos de vários países da CPLP e da diáspora, criando pontes entre diferentes realidades científicas.

O programa inclui ainda um pré-arranque na Universidade Eduardo Mondlane e no Instituto Guimarães Rosa, com workshops dedicados à escrita académica, ao cinema e à inteligência artificial — áreas consideradas estratégicas para a formação de uma nova geração de investigadores.

Ao todo, mais de 40 oradores participam na conferência, enquanto cerca de 60 jovens investigadores terão a oportunidade de apresentar os seus trabalhos científicos, num exercício de partilha e validação de conhecimento.

Para Cristina Molares D’Abreu, o impacto vai além dos números. Trata-se de uma mudança de mentalidade. “Queremos que a ciência local encontre a comunidade internacional e traga valor enquanto africanos”, afirmou, defendendo a necessidade de abandonar visões redutoras sobre o continente.

A mensagem é inequívoca: África não é apenas um objecto de estudo — é também produtora de conhecimento. E em Maputo, essa ideia ganha voz através de uma geração que quer, finalmente, ser ouvida.