O Governo de Moçambique pretende abandonar políticas económicas que concentram o crescimento na indústria extrativa e orientar a estratégia nacional para o fortalecimento de cadeias produtivas. A posição surge num contexto de fragilidades estruturais persistentes da economia, que ainda tenta recuperar após um ano marcado por contração.
Num relatório do Ministério das Finanças sobre a execução orçamental de 2025, o Executivo reconhece uma “tendência de crescimento atual relativamente mais baixo”, sublinhando a necessidade de adotar “medidas económicas robustas e consistentes que galvanizem os principais sectores produtivos”.
Segundo o documento, esta leitura “reforça a necessidade de uma orientação mais prudente e seletiva da política económica”, capaz de enfrentar as fragilidades estruturais da economia e evitar a repetição dos constrangimentos registados nos últimos anos.
Nesse sentido, o relatório defende que devem ser desencorajadas políticas que aprofundem a concentração do crescimento em sectores primários, sobretudo na indústria extrativa, sem o desenvolvimento paralelo de cadeias produtivas. O mesmo documento alerta igualmente para os limites da expansão da despesa pública corrente sem impacto direto na capacidade produtiva, bem como para a dispersão do investimento público em projectos com reduzido efeito económico.
“Do mesmo modo, a expansão da despesa pública de natureza corrente, sem impacto direto na capacidade produtiva, bem como a dispersão do investimento público em projetos de reduzido efeito económico, mostrou-se insuficientes para travar a contração do PIB [Produto Interno Bruto]”, refere o relatório.
Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a economia moçambicana registou uma recuperação no último trimestre de 2025, crescendo 4,67% após quatro trimestres consecutivos de quedas. Ainda assim, o país terminou o ano com uma contração homóloga de 0,52%.
Este desempenho económico ocorreu num período particularmente turbulento, marcado pelos violentos protestos que se seguiram às eleições gerais de 9 de Outubro de 2024. Ao longo de mais de cinco meses, os confrontos provocaram cerca de 400 mortos e deixaram um rasto de destruição em empresas e infraestruturas públicas.
Os números do INE indicam ainda que, no terceiro trimestre de 2025, o PIB a preços de mercado recuou 0,85% face ao mesmo período de 2024. O ano registou igualmente quebras no primeiro e segundo trimestres de 2025, de 3,92% e 0,94%, respectivamente, além da contração de 5,68% verificada no quarto trimestre de 2024.
A economia moçambicana continua profundamente dependente da exploração de carvão e gás natural, sectores que dominam as exportações nacionais, segundo dados anteriores do banco central.
O relatório do Ministério das Finanças alerta também para os riscos associados a políticas que comprometam a estabilidade macroeconómica, designadamente através de desequilíbrios fiscais, pressões inflacionistas ou instabilidade cambial. Tais factores, refere o documento, tendem a agravar o enfraquecimento da procura interna e a retração do investimento privado, como ficou evidente no desempenho desfavorável de vários ramos do sector terciário em 2025.
Em sentido oposto, o balanço económico aponta para a necessidade de ajustar estratégias e políticas públicas para acelerar a recuperação da base produtiva do país. Entre os sectores prioritários identificados estão a indústria transformadora, a energia, a construção, a agricultura e os serviços logísticos, áreas com forte efeito de arrastamento sobre a economia e cuja evolução condiciona significativamente o desempenho global da actividade económica.
No que respeita ao investimento público, o documento defende uma abordagem mais seletiva e produtiva, centrada em infraestruturas económicas críticas e em intervenções com elevado efeito multiplicador, capazes de dinamizar o emprego e o autoemprego jovem, ao mesmo tempo que estimulam a produção interna.
Paralelamente, o Governo considera essencial reforçar os instrumentos de apoio ao sector privado, sobretudo às micro, pequenas e médias empresas, apontadas como fundamentais para revitalizar o mercado interno e dinamizar o comércio, incluindo o informal.
