O Governo decidiu cancelar o concurso internacional para a compra de oito aeronaves destinadas à LAM, num movimento que revela profundas tensões e interesses divergentes no interior da companhia aérea de bandeira. O anúncio foi feito pelo Presidente da República, Daniel Chapo, esta segunda-feira, em Maputo, no discurso de balanço dos primeiros cem dias de governação.

Segundo o Chefe de Estado, o processo foi entregue a indivíduos com interesses alheios ao bem público, comparando-os a “raposas a tomar conta de um galinheiro”. A metáfora, usada com intenção clara, aponta para a existência de elementos na estrutura da LAM cuja prioridade não seria o reforço da frota própria, mas sim a manutenção de práticas que garantem ganhos privados à custa da dependência externa da companhia.

“O que descobrimos dentro da nossa empresa é preocupante. Há pessoas com conflitos de interesse que não querem que a LAM tenha aviões próprios. Querem que continue a alugar, porque assim recebem comissões”, disse Chapo, num tom de denúncia que não deixou margem para ambiguidades.

A promessa do Governo era colocar, pelo menos, três aeronaves ao serviço antes de completados os cem dias. Os recursos estavam disponíveis, provenientes de novos accionistas. Contudo, uma equipa enviada à Europa para inspeccionar os aparelhos regressou sem sequer avaliar uma única aeronave, após duas semanas no terreno. “Não faz sentido”, afirmou o Presidente, visivelmente indignado.

Diante destes factos, o Executivo decidiu anular o concurso e reestruturar profundamente a companhia. O processo incluirá, de forma explícita, mudanças nos quadros e eventuais cessações de funções. “Vamos reestruturar a LAM, inclusive pessoas, para irem para casa, sentar e deixar-nos trabalhar”, declarou Chapo.

A intervenção presidencial não se limitou à crítica: funcionou como sinal claro de ruptura com práticas instaladas. Uma LAM com futuro, parece dizer o Presidente, exige antes de tudo uma purga silenciosa — e firme — dos obstáculos internos que bloqueiam o progresso.