A mais recente avaliação da agência de notação financeira Fitch revela um retrato preocupante da economia moçambicana em 2025: a suspensão dos apoios da USAID, decidida no início do ano pelo novo Governo norte-americano de Donald Trump, está a intensificar a escassez de divisas no país, com repercussões directas no desempenho económico e no mercado de trabalho.
De acordo com a Fitch, a interrupção da ajuda da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional – que em 2024 canalizou cerca de 586 milhões de dólares (o equivalente a 505 milhões de euros) para Moçambique, principalmente nos sectores da saúde e educação – privou a economia moçambicana de uma fatia considerável de recursos externos, representando cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB). A agência afirma que “a escassez de moeda estrangeira aumentou em 2025, em parte devido à queda dos desembolsos externos ao Governo e à suspensão da USAID”.
O encerramento definitivo da missão da USAID em Moçambique foi confirmado a 1 de Julho, aprofundando uma crise que já se fazia sentir no início do ano. As consequências desta retirada não se limitaram ao plano macroeconómico. Segundo dados divulgados em Julho pela ministra do Trabalho, Género e Acção Social, Ivete Alane, estima-se que cerca de 2.500 empregos tenham sido perdidos em resultado directo do fim do financiamento, sobretudo em organizações anteriormente apoiadas pela agência norte-americana. A ministra ressalvou, no entanto, que não existe ainda uma estimativa oficial consolidada.
A Fitch manteve a notação de crédito de Moçambique em CCC — o nível imediatamente anterior ao Incumprimento Financeiro — reflectindo um cenário de elevada vulnerabilidade. A agência nota, contudo, que algumas medidas internas poderão aliviar a pressão cambial. Entre elas, destaca-se o aumento da taxa mínima de conversão obrigatória de receitas de exportação para meticais, que subiu de 30% para 50% em Abril, e a expectativa de um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) até ao final do ano.
Paralelamente, o Banco de Moçambique tem vindo a adoptar acções para dinamizar o mercado cambial. Numa conferência de imprensa realizada a 31 de Julho, o governador Rogério Zandamela explicou que estão a ser implementadas medidas para redistribuir os recursos em moeda estrangeira de forma mais eficiente entre os diferentes sectores. “Essas medidas não são mais nada que ajustar daqui, tirar daqui, certos recursos, pôr no outro e acompanhar melhor”, declarou.
Zandamela acrescentou que foi reduzido o limite de retenção diária de divisas pelos bancos comerciais, com o objectivo de aumentar a disponibilidade de moeda estrangeira ao público e às empresas. Este conjunto de decisões, segundo o governador, deverá contribuir para aliviar o actual défice de acesso a divisas que afecta, entre outros, os sectores de saúde, aviação, combustíveis e produtos alimentares — uma preocupação já manifestada publicamente pela Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), a maior organização empresarial do país.
A Fitch, por seu lado, mantém a previsão de que as reservas internacionais líquidas do país se manterão estáveis em torno dos 3.500 milhões de dólares (3.020 milhões de euros) ao longo de 2025, embora sublinhe que os “riscos persistem” num ambiente externo adverso e com grande dependência de ajuda internacional.
