Num cruzamento entre a expressão artística e a resiliência social, um grupo de jovens moçambicanos está a transformar os semáforos de Maputo em pequenos palcos urbanos. Chamam-se "Sem Limites X", são seis artistas liderados por Leonardo Mendes, um estudante de 22 anos que pinta e dirige estátuas humanas na capital. A ideia é simples e poderosa: alegrar o dia dos transeuntes e motoristas, enquanto garantem o sustento em tempos de desemprego.
"Isso muda o dia das pessoas", afirma Leonardo à agência Lusa, pouco depois de montar duas figuras prateadas na Avenida Mao Tse Tung. Com uma postura imóvel e cestas ou peneiras estendidas à espera de moedas, as estátuas mantêm-se firmes por até seis horas, todos os dias, desde as 07:00.
Além de ajudar nas despesas da universidade e de casa, a actividade é também um meio de envolver o irmão mais novo e preservar o direito de ambos à arte e à infância. Com ganhos diários que rondam os 2.000 meticais, Leonardo aposta em manter viva a criatividade: “Quero inovar a arte e a estátua humana, não deixar isso morrer”.
Do outro lado da cidade, Bernardo Miguel, de 25 anos, resiste sob o peso do dia a dia com a mesma tinta prateada no corpo. Sem formação académica, vê na arte uma via de esperança. "Eu estou pensando em fazer negócios... Sentar em casa também não é solução", diz, já a planear vender roupa nos mercados. Ganha cerca de 700 meticais por dia e acredita que esta arte pode abrir portas: “A pessoa pode parar para levar o meu número para eventos”.
Na Avenida Salvador Allende, Alice Mussa, de 19 anos, brilha num tom verde, uma escolha intencional: "Escolhi a cor verde, porque ainda não vi". De bailarina a humorista, encontrou nas estátuas humanas uma forma de recomeçar. Sonha com a África do Sul e está a juntar dinheiro para renovar o passaporte. “Fico feliz quando me chamam mulher estátua”, conta. Chega a ganhar 1.000 meticais por dia e assegura que nunca teve problemas de pele com a tinta.
A arte de rua, neste caso, é mais do que performance — é estratégia de sobrevivência. Lucas Zimba, de 36 anos, vê nisso inspiração: “Vai incentivar muita gente a não ficar sem fazer nada”. Depois de deixar 100 meticais na cesta de uma das estátuas, voltou à sua banca de venda de peças artesanais, com que sustenta a família há quatro anos — longe da criminalidade.
Apesar das dificuldades, da exposição ao clima e da insegurança, os jovens não desistem. São estátuas vivas, sim — mas carregadas de histórias, sonhos e persistência.
