Esquecer-se onde estacionou o carro, trocar os nomes de familiares ou deixar os óculos dentro do frigorífico são episódios familiares a quase todos. Mas em que momento estes lapsos deixam de ser normais e passam a indicar um possível problema cognitivo sério?

É uma dúvida legítima, respondida por especialistas em demência e envelhecimento ao The Guardian, que esclarecem a ténue fronteira entre o esquecimento trivial e os sinais precoces de demência.

A psicóloga Kaarin Anstey, directora do Instituto de Envelhecimento da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, afirma que o cérebro pode tornar-se “um pouco mais lento” tanto por cansaço como pelo envelhecimento natural. Contudo, nem todos os esquecimentos justificam alarme.

O que é considerado normal?

Segundo Anstey, esquecer um título de filme, demorar mais tempo a concluir tarefas ou perder ocasionalmente objectos é aceitável no processo de envelhecimento. A neurologista Amy Brodtmann, da Universidade Monash, em Melbourne, corrobora esta visão, sublinhando que a diminuição da velocidade de processamento mental é uma consequência comum da idade ou do cansaço.

Michael Woodward, geriatria e investigador no Hospital Heidelberg Repatriation, também em Melbourne, reforça que não saber onde se colocaram as chaves, por si só, não representa um motivo de preocupação. Lapsos rotineiros podem resultar de simples distracção, não devendo ser imediatamente associados a doenças neurológicas.

"Nem todo esquecimento é inocente — quando a memória falha com frequência, o cérebro pode estar a pedir ajuda."

Trocar nomes de pessoas, levantar-se para fazer algo e esquecer-se no caminho, ou ter dificuldade pontual em lembrar uma palavra, são falhas normais do funcionamento cerebral – especialmente em momentos de stress ou fadiga.

Quando é que se torna preocupante?

A repetição sistemática destes lapsos, no entanto, já merece atenção. Woodward explica que trocar nomes constantemente, ou esquecer tarefas importantes com frequência, pode ser um sinal de alerta. Mais ainda se a pessoa começa a deixar o fogão ligado, esquecer torneiras abertas ou perder-se em lugares que antes lhe eram familiares.

Desmond Graham, director médico da Geriatric Care Australia, alerta para mudanças no discurso: tropeçar nas palavras, esquecer-se delas ou formar frases incoerentes podem ser sintomas precoces de demência.

Amy Brodtmann acrescenta que o esquecimento de acontecimentos emocionalmente significativos, como a morte de um amigo próximo, ou a repetição da mesma história várias vezes numa mesma conversa, são indicadores preocupantes, frequentemente associados à doença de Alzheimer.

A demência em números

De acordo com o Serviço Nacional de Saúde, a demência é uma deterioração progressiva das funções mentais superiores, incluindo a memória, a linguagem e a agilidade mental. Em estágios avançados, compromete a autonomia e a estabilidade emocional dos doentes.

A doença de Alzheimer representa entre 50% a 70% dos casos diagnosticados. Dados da Associação Alzheimer Portugal indicam que, entre os 65 e os 69 anos, um em cada 80 mulheres e um em cada 60 homens sofrem da doença. Acima dos 85 anos, um em cada quatro indivíduos é afectado.

Prevenção e resposta

Estudos recentes confirmam que a hipertensão aumenta o risco de demência, e que práticas como alimentação equilibrada e exercício físico regular são factores protectores.

A recomendação dos especialistas é clara: se houver sinais persistentes ou progressivos, a pessoa deve procurar um médico de Medicina Geral e Familiar ou um especialista em geriatria, para avaliação e acompanhamento adequados.