Especialista em medicina do sono defende que os horários escolares actuais são incompatíveis com o desenvolvimento neurológico de crianças e adolescentes.

Acordar uma criança para ir à escola às 8h00 parece, à primeira vista, algo inócuo — uma rotina quotidiana. No entanto, do ponto de vista biológico, é como arrancar um adulto da cama às quatro da manhã. O alerta vem de Bruna Reis, mestre em medicina do sono, numa entrevista concedida ao podcast Consulta Aberta, do jornal Expresso de Portugal.

Segundo a especialista, o ritmo circadiano dos mais novos encontra-se profundamente desalinhado com os horários escolares actuais. “As crianças ainda estão na sua noite biológica quando são mandadas para a escola. É como se estivéssemos a acordar um adulto às quatro da manhã”, afirma.

O caso dos adolescentes é ainda mais crítico: após a puberdade, a produção de melatonina — a hormona que regula o sono — acontece mais tarde. Isto significa que os adolescentes têm uma predisposição genética para adormecer mais tarde e, por consequência, também precisariam de acordar mais tarde.

“Não é mau feitio, é mesmo uma predisposição biológica”, acrescenta Margarida Graça Santos, médica de família e anfitriã do podcast.

Ciência defende mudanças simples com impacto real

Bruna Reis sublinha que os horários escolares, por serem fixos e excessivamente matinais, colidem com o funcionamento natural do organismo juvenil. “Se o adolescente viver longe, tem de acordar ainda mais cedo, com a hormona da noite ainda em plena circulação”, explica.

Estudos científicos demonstram que adiar o início das aulas em apenas 30 minutos pode trazer melhorias notórias no desempenho académico, no humor e até na assiduidade. “Cortar o sono é penalizá-los. O sono regula emoções, protege a saúde mental e influencia directamente a capacidade de aprender. Eles vão um bocado descalços para a escola e para tudo o que têm de fazer.”