Ecoturismo, a aposta da Reserva Especial de Maputo
Escrito por: Mariano Silva
A ansiedade, naquela tarde de quinta-feira, aumentava gradualmente, enquanto os quilómetros para chegar ao portão principal da Reserva Especial de Maputo (REM) iam diminuindo. Seria a minha primeira vez na reserva, um espaço que ainda não tinha tido a oportunidade de visitar. A Xonguila fora convidada a fazê-lo pela ANAC (Administração Nacional das Áreas de Conservação) e a Peace Parks Foundation (PPF) no quadro do lançamento do acampamento de Membene, na costa, reservado para o final de uma visita de 5 dias. Decidi relatar aqui essa aventura como história pessoal porque, sendo a primeira vez que lá fui, seu impacto foi grande e fruto de uma experiência única. Assim, este artigo é de carácter subjectivo, pelo que o leitor, tendo já visitado ou não o espaço, poderá opinar de forma diferente.
Cheguei aos escritórios centrais, o ponto de encontro marcado, com uma hora de atraso, devido a algumas peripécias antes de partir de Maputo. A restante comitiva já estava instalada no acampamento de Xinguiti, junto à lagoa com o mesmo nome. Separavam-nos ainda 45 minutos de estrada arenosa só admissível para veículos 4x4. Também isto era novo para mim, conduzir em trilhos puramente todo-o-terreno, e foi uma experiência muito interessante, principalmente porque desconhecia o comportamento do carro naquele tipo de via. O meu maior receio era ficar enterrado na areia, mas, felizmente, foi algo que acabou por não acontecer. Dividi a atenção sobre a estrada com alguns animais que se cruzavam connosco no caminho, entre eles um jovem elefante que se alimentava na orla do bosque, mas que rapidamente se desvaneceu por entre a folhagem densa. Os primeiros sinais da infra-estrutura do acampamento de Xinguiti que surgiam ao longo da estrada deixavam adivinhar um espaço organizado e bem planeado, expectativas essas que não viriam a ser defraudadas após chegar ao destino.
Uma brecha entre a muralha formada pelo arvoredo deixava antever um cenário paradisíaco ao redor da lagoa Xinguiti, que se fazia acompanhar de uma panóplia de sons de inúmeras aves e hipopótamos desfrutando da sua riqueza. Após me deliciar por algum tempo com a paisagem, chegou a vez de montar tenda no acampamento. Sim, o objecto da visita era mostrar aos órgãos de comunicação social o potencial do ecoturismo em diversos pontos da REM, sendo a lagoa Xinguiti um dos principais polos de destino.
Actualmente o espaço conta com 6 lotes para campismo, albergando cada um deles um balneário equipado com duas bacias para higiene pessoal, um sanitário e um duche de água quente. Adicionalmente, poderão encontrar-se uma bacia dupla para lavagem de loiça e 3 fichas USB para carregamento de equipamentos electrónicos. Para além do balneário, cada lote possui 3 a 4 ilhas para a montagem de tendas. A iluminação do acampamento é garantida até às 22 horas, provisoriamente através de gerador, que se encontra bastante afastado, não causando qualquer perturbação durante o sono.
“Uma brecha entre a muralha formada pelo arvoredo deixava antever um cenário paradisíaco ao redor da Lagoa Xinguiti”
Na minha perspectiva, trata-se de uma excelente oportunidade para os moçambicanos amantes da natureza desfrutarem de um espaço de excelência a pouco mais de duas horas de carro de Maputo, óptimo para passar um fim-de-semana com a família e amigos e apreciar as magníficas paisagens que se desenrolam em redor da lagoa Xinguiti. Mesmo para quem não se sinta confortável em dormir no seio da natureza selvagem é uma excelente oportunidade de convívio por um só dia, a preços bastante acessíveis, com a particularidade de poder alugar em exclusivo um lote, com o respectivo balneário, apenas para si e a sua família.
Ao cair da noite, reunimo-nos todos em redor da fogueira e iniciou-se a troca de experiências entre os convidados, ao sabor de um suculento bife no churrasco preparado pelo responsável pelo desenho da infra-estrutura actual do acampamento, o arquitecto sul-africano Niel Crafford, que conta com uma vasta experiência no desenvolvimento de infra-estruturas para turismo sustentável em reservas e parques naturais por toda a África Austral. Falou-se um pouco de tudo, mas o assunto dominante foram as potencialidades da Reserva Especial de Maputo no que respeita à atracção de visitantes, quer moçambicanos, quer da vizinha África do Sul, para a prática do ecoturismo.
A alvorada anunciou-se tímida, por entre um nevoeiro cerrado que apenas se dissipou pelo final da manhã. O plano seria desfrutar da paisagem e da fauna até chegarmos ao escritório central, onde o administrador das Reservas Especial de Maputo (REM) e Marinha Parcial da Ponta do Ouro (RMPPO), Miguel Gonçalves, iria fazer uma apresentação da REM e da RMPPO. O nevoeiro formava uma barreira entre nós e as magníficas paisagens, mas ainda assim conseguimos vislumbrar espaços muito atractivos no que respeita a beleza natural, incrementados com um toque de misticismo devido à neblina. Miguel Gonçalves (da ANAC) e Antony Alexander (da PPF) apresentaram o que é presentemente a REM e os planos para o futuro envolvendo a integração da RMPPO na criação de um grande parque nacional que poderá ter interacção transfronteiriça com as reservas adjacentes da vizinha África do Sul e Eswatini, o que cimentou ainda mais a minha perspectiva do enorme potencial turístico que esta região tem para oferecer, matéria que contamos aqui trazer em breve. Foram abordados também os planos de ampliação das facilidades dos acampamentos de Xinguiti e Membene, a serem executados num futuro muito próximo. Ambos os locais contarão com a construção de chalets e um restaurante. No caso particular de Xinguti, os chalets terão vista panorâmica, privilegiando-se uma vista elevada sobre a lagoa. Em Membene, por seu turno, o visitante terá a oportunidade de usufruir de uma vista idílica sobre a praia adjacente. Os planos da ANAC e da PPF não se ficam por aqui. Está previsto implementarem-se vários spots de piqueniques e locais de campismo rústico, ao longo de quase 200 km de trilhos 4x4, em pontos estratégicos para avistamento de vida selvagem.
Após a visita aos escritórios centrais, dirigimo-nos para a planície dos elefantes. A minha expectativa era a de que aqui veríamos bastantes animais desta espécie, mas infelizmente isso não foi possível. A REM conta presentemente com mais de 400 elefantes, 4 manadas de búfalos (que infelizmente não cheguei a avistar), girafas, zebras, e toda a restante fauna comummente avistada em parques naturais africanos, com excepção de leões, rinocerontes e chitas. Antony Alexander, responsável da PPF em Moçambique, revelou os planos para a libertação, já no próximo mês de Setembro, de quatro chitas nas planícies da reserva. Em Março de 2021, mais animais desta espécie serão aqui libertados, pelo que me autoconvidei de imediato para fotografar este que será um marco histórico da REM, e espero trazer-vos também em breve esses registos.
De regresso ao acampamento de Xinguiti para passarmos a segunda noite, tivemos a oportunidade de ver uma gama variada de aves ao largo da lagoa, incluindo a fantástica águia pesqueira, com o seu pescoço branco bem distinto do das outras espécies de águias. Hipopótamos e crocodilos também estiveram ao nosso alcance. Aconselho a quem lá vá que se faça acompanhar por um par de binóculos para melhor poder observar a fauna selvagem.
Pude finalmente ver o nascer do sol sobre a Lagoa Xinguiti na manhã de sábado. É um cenário de cortar a respiração para aqueles que apreciam a natureza no seu estado mais selvagem. O azul da lagoa, entrelaçado com o reflexo laranja do sol nascente, proporcionou-nos um espectáculo de luz inigualável.
Deixámos o acampamento onde pernoitámos por duas noites e o nosso destino era agora a Lagoa Nela, não sem antes passar por extensas planícies com animais de entre os quais se destacavam manadas de gnus. Tinha a percepção de que a reserva Especial de Maputo era relativamente pequena, mas não poderia estar mais errado. É uma vastidão enorme de pradarias, bosques, colinas, lagos e lagoas, e, com alguma sorte, podem ver-se alguns animais bem de perto. A ANAC e a Peace Park Foundation proporcionaram-nos uma oportunidade única, pois pudemos percorrer trilhos que normalmente são vedados ao público. Nessas incursões, fiquei maravilhado com a imensidade das planícies quando avistadas a partir das colinas. Não tenho palavras para descrever tamanha beleza natural e posso dizer que as fotografias muito ficam a dever à sua verdadeira essência. Os tão expectados elefantes finalmente se fizeram mostrar, uma manada pastava entre capim alto junto a um pequeno charco. Estavam longe, mas foi bom assim, não perturbámos a serenidade dos paquidermes com a nossa estranha presença.
Para o fim desta jornada no terceiro dia estaria para vir ainda um cenário mais idílico do que todos quantos vimos horas antes; chegámos, finalmente, ao acampamento da Lagoa Nela. Ali tínhamos disponíveis instalações básicas para a prática de campismo, uma casa de banho, chuveiro de balde e lava-loiça. É, sem dúvida, um espaço para a prática de campismo para os mais audazes, mas, em jeito de prémio, a paisagem é merecedora para quem faz o esforço para ali chegar e pernoitar. O melhor estaria para vir ainda. Com o pôr-do-sol e o vento contra, diversos animais abeiraram-se da lagoa para saciar a sede. Para muitos deles a nossa presença passou despercebida, a pouco mais de uma centena de metros. A noite caiu rapidamente, e a luz emanada pelas chamas da fogueira foi lutando contra o cintilar do céu coberto de estrelas, um espectáculo magnífico.
A meio da noite, cerca das 03:30, acordei de sobressalto com o “ronronar” de uma manada de elefantes que passou por ali perto para se reabastecer de água na lagoa. Confesso que foi para mim um momento de tensão; para os outros, nem por isso, a julgar pela forma como ressonavam nas suas tendas, mais parecendo estarem a despique com os elefantes.
Na manhã do quarto dia faríamos a viagem até ao acampamento de Membene, com uma pequena incursão pela maior lagoa da reserva, a Lagoa Piti. O caminho apresentou-se muito complicado, tínhamos sido avisados disso. Puxou ao máximo pela destreza dos condutores devido aos sulcos profundos na estrada e areia solta, que já havia reclamado algumas viaturas, enterradas dias atrás. Eu estava um pouco apreensivo, mas a caravana acabou por percorrer o trilho sem nenhum percalço. Ao longo da margem da lagoa pudemos observar alguma actividade pesqueira, apenas permitida a alguns membros das comunidades locais para sustento das famílias.
O tempo que tinha disponível não me permitiu visitar a ponta Dobela, aquela de que se diz ser talvez o único ponto do mundo onde se podem ver dois dos maiores mamíferos do planeta, o elefante, na planície, e a baleia jubarte (baleia corcunda), no mar. É uma questão de probabilidade, é claro, será pequena, mas é justamente por isso que esse pequeno pedaço de terra é conhecido e visitado propositadamente.
Chegámos finalmente a Ponta Membene e respectivo acampamento. Fiquei surpreendido com o que tinha perante mim. Do lado continental da duna primária encontrava-se o acampamento, cujas facilidades eram similares às do acampamento da Lagoa Xinguiti, embora em Membene haja a particularidade de se poder encontrar do outro lado da duna uma praia pristina de areia branca, uma paisagem imaculada que parece ter saído de um imaginário perfeito. Mais uma vez, as instalações colocadas ao dispor do visitante são fantásticas para a prática de campismo, perfeitamente integradas com a paisagem envolvente. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, há motivos para vir passar uns dias com a família e amigos em plena harmonia com a natureza, em que um churrasco será o ponto alto da confraternização. Infelizmente não pude aqui pernoitar, tive de rumar a Maputo nessa mesma tarde, mas as duas horas de 4x4 e uma hora de via normal até Maputo parecem-me pouco para o que de tão maravilhoso este espaço pode proporcionar a quem o visitar.
Ficámos assim a par da aposta forte destas duas instituições (a ANAC e a PPF) no desenvolvimento do ecoturismo na Reserva Especial de Maputo, e eu espero que este pequeno relato tenha suscitado curiosidade no leitor, pois, como disse anteriormente, fica aquém da verdadeira e majestosa beleza deste espaço natural bem preservado, tão perto da capital moçambicana.
Se não respeita a natureza, este lugar não é para si, não destrua o que muitos batalharam para conseguir para benefício e usufruto dos outros. Este espaço, assim como toda a reserva, apenas é digno de quem vive harmoniosamente com a natureza. A cada dia que passa caminhamos para um abismo sem retorno, devido a comportamentos desrespeitosos para com o mundo que nos rodeia. Restam-nos estes pedaços de terra imaculados que necessitam de ser protegidos para que quem destrói perceba o quão pouco falta para que o que resta acabe, e a nossa presença neste planeta tenha sido apenas em vão.
(A equipa da Revista Xonguila deixa desde já o seu agradecimento à ANAC e à Peace Parks Foundation pelo convite e oportunidade proporcionada, que permitiu desenvolver esta matéria).
