A Xonguila conversou com a promissora estilista Cuccla, de forma a conhecer um pouco melhor as suas colecções. Apesar da ainda curta carreira, a estilista já é uma referência da moda nacional que tem impactado muito positivamente o mercado.

Como surge a vontade de criar uma marca de moda?
Enquanto tirava o meu curso, que consistiu em Design e Modelação de Vestuário, surgiu uma grande vontade de formar uma marca de roupa pronto-a-vestir com produção em Moçambique. Uma marca prática e funcional, mas que transmitisse a nossa essência. Comecei com uma linha de beachwear, com bikinis desenhados e produzidos no meu atelier, e também algumas peças leves, frescas e cheias de verão, com muita abordagem em linho e algodões, por serem tecidos com fibras naturais. As colecções que se seguiram foram trazendo cada vez mais peças cujo uso pode ser aplicado a outras ocasiões.

“Desenhei variados modelos de quimonos e vestidos leves e fluidos, saias traçadas, calças e camisas despojadas, de linho e algodão, cuja usabilidade tanto podia ser para se estar confortavelmente bem em casa como ser funcional no nosso dia-a-dia”

Fala-nos um pouco de como funciona o teu processo criativo, no que te inspira, no que te leva a lançar colecções tão criativas.
Nem sempre sigo a mesma sequência, mas diria que começo por definir um tema, depois vou esboçando algumas ideias, modelos e estampas no papel. Em simultâneo, há toda uma pesquisa de mercado a acontecer, para a escolha dos materiais, dos tecidos e dos acessórios, e depois montamos a palete de cores.  É um processo muito longo e que é visto e revisto inúmeras vezes. Até agora, senti que houve uma busca interna muito grande, e que todas as colecções, de forma inconsciente, acabam por reflectir o meu estado de espírito durante o processo. A colecção Lotus, por exemplo, foi concebida durante o pico da pandemia em Moçambique, em 2021, uma altura bastante complicada e em que, face às circunstâncias, fomos todos forçados a olhar para nós com atenção mais pormenorizada, aproveitámos para fazer uma limpeza interna e focámo-nos mais naquilo que é essencial. Sinto que, a partir desse conjunto de princípios, surgiu uma colecção que falava muito sobre a importância do bem-estar do corpo e da mente, e, assim, desenhei variados modelos de quimonos e vestidos leves e fluidos, saias traçadas, calças e camisas despojadas de linho e algodão, cuja usabilidade tanto podia ser para se estar confortavelmente bem em casa – porque estar em casa não implica que estejamos desarranjados –, como ser funcional no nosso dia-a-dia. A minha nova colecção é mais ousada em relação às anteriores e também sinto que veio com uma moda mais fun.  Trouxemos modelos mais compostos e elaborados, como é o caso das peças de alfaiataria, casacos, coletes. Outro aspecto que se destaca nesta colecção é a abordagem aos bordados, ao crochet, às pecas feitas em macramé e proposta de outfits em color block. Do nosso ADN mantivemos o linho, o poplin cotton e outros tecidos com fibras de algodão.


Acho que todas as colecções até agora exprimem momentos diferentes da minha vida. Fazem todas partes de mim, logo, pessoalmente falando, não consigo ter preferência por nenhuma. Olhando para elas com um olhar mais clínico, as duas últimas foram mais desafiantes. Para se ter uma noção, somente a construção dos padrões da colecção Terre levou aproximadamente 6 meses, sem contar com o tempo para a montagem dos modelos da colecção inteira. Quando estou a criar uma colecção, nem sempre sigo o mesmo cronograma, o que pode também alterar é a ordem de importância das tarefas. Em todo o caso, criar uma colecção de moda é um processo que envolve muitas etapas, dentre elas muito trabalho de pesquisa por forma a observar os gostos e as tendências dos consumidores nesse período de tempo. Considero ser esse um dos pontos-chave. A escolha do tema principal e a montagem do storytelling, que é precisamente aquilo que vai criar uma relação entre a peça e o consumidor. Lembro-me que, quando comecei a trabalhar na última cocleção, Fall/Winter - Libertá, tinha pouco mais do que duas peças-piloto, entretanto idealizei um dos cenários no qual achava que as peças se fossem representar melhor, e dali foram nascendo as outras peças que iriam completar o momento. Recriámos esse cenário recentemente, depois da colecção terminada, para fotografar as roupas.

Sabemos que todos os negócios foram afectados de alguma forma pela pandemia. No teu caso, sofreste algum impacto?
A pandemia impulsionou a criação da minha marca. Se já tinha uma grande vontade de desenvolver uma linha de roupas que obedecesse às características dos nossos corpos e que fosse acessível à nossa realidade, com a pandemia esse desejo tornou-se uma necessidade. Uma vez que as pessoas estavam interditas de viajar, despertou-se também uma curiosidade por aquilo que era produzido localmente. Por outro lado, acho que a situação da pandemia veio chamar-nos à razão para a forma descompensada como nós, de forma global, nos tornámos uma sociedade de alto consumo, e os reais danos desse exagero.  Efectivamente, começámos a ter maior percepção de que o fast fashion e a rápida produção em massa, naturalmente provoca um consumo massivo e, muitas vezes desnecessário, e esta consciência direccionou muitas pessoas para marcas cuja actuação é de forma mais espaçada produzir peças em menor quantidade, com vida útil mais longa – Apelamos pela exclusividade e o planeta agradece!

Como idealizaste esta última colecção?
Para esta colecção, entrei numa viagem que me conduziu a imaginar o guarda-roupa de Maria Helena, nome da persona. Maria Helena, aquela mulher que se levanta com o primeiro raio de sol, pronta para enfrentar o dia com a sua melhor disposição. Vive com amor o desafio diário de ser mãe, esposa, filha, irmã mais velha, dona de casa, praticante de ténis, directora… sem abdicar dos sonhos profissionais e pessoais. Maria Helena é o que ela quiser. Um facto enigmático sobre ela: palavras como “desistir” tão pouco ganham virtude na sua vida. Falo ainda de uma Maria Helena que se encontra numa busca incansável pelo seu autoconhecimento e valorização. Ser Maria Helena é ir mais além, para atingir o que até então poucas se atrevem a conquistar. É procurar por algo inatingível, mas, acima de tudo, é ser a mulher que se conhece como dona de si, que se aceita e que trata a liberdade por tu.

Sabemos que participaste no Fashion Sunset. Conta-nos como foi essa experiência.
O Fashion Sunset nasceu de uma parceria com a KIA. Comecei a trabalhar na colecção de Outono em Janeiro de 2022 e, pouco tempo depois, fui contactada pela KIA para desenvolvermos um projecto em conjunto. Eles iam lançar o novo modelo do Sportage, que é um carro bastante procurado por mulheres, e, tendo em conta a narrativa da colecção que estávamos a desenhar, constatámos que uma associação do novo Sportage ao lançamento da colecção Fall da CUCCLA fazia todo o sentido. Concebemos então um evento privado, ao pôr-do-sol, no Southern Sun, onde recebemos as pessoas que fizeram parte da história da marca desde o início. O desfile foi maravilhoso e no final ficámos todos muito felizes.