Ao longo de meio século, cerca de 2700 estudantes moçambicanos receberam bolsas do Estado português para prosseguir a formação académica, numa cooperação que atravessa diferentes níveis de ensino e que, este ano, volta a levar novos bolseiros para instituições de ensino superior em Portugal.
Os números foram apresentados em Maputo, durante um encontro com estudantes seleccionados no quadro da cooperação entre Moçambique e Portugal. Segundo a agência Lusa, 17 moçambicanos beneficiarão, este ano, de bolsas atribuídas através do Instituto Camões para frequentarem cursos de licenciatura e mestrado em universidades portuguesas.
“O Estado português já conferiu cerca de 2700 bolsas a estudantes moçambicanos”, revelou o embaixador de Portugal em Maputo, Jorge Monteiro, ao fazer o balanço das últimas cinco décadas de cooperação, período contado desde a independência de Moçambique.
As oportunidades concedidas ao longo destes anos abrangeram licenciaturas, mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos, incidindo igualmente sobre áreas consideradas relevantes para as necessidades de desenvolvimento do País.
Entre os 17 estudantes seleccionados este ano, oito vão frequentar cursos de licenciatura e nove avançam para programas de mestrado. Sete destes últimos seguirão formações ligadas às áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM).
Os bolseiros são provenientes das províncias de Maputo, Nampula, Niassa e Sofala e têm partida para Portugal prevista para 28 de Setembro.
“Este ano tivemos 17 bolseiros que beneficiarão de bolsas do Instituto Camões, dos quais oito frequentarão programas de licenciatura em Portugal e nove irão frequentar programas de mestrado”, afirmou Jorge Monteiro.
O grupo será distribuído por diferentes instituições portuguesas, entre as quais a Universidade Nova de Lisboa, o ISCTE, a Universidade da Beira Interior, a Universidade do Minho, a Universidade do Algarve e a Universidade de Évora.
Mais de mil candidatos
As bolsas atribuídas através do Instituto Camões representam apenas uma das vias disponíveis para estudantes moçambicanos que pretendem prosseguir estudos em Portugal. Outra possibilidade é o regime especial de acesso ao ensino superior português.
Por esta via, 292 estudantes foram colocados este ano, depois de um processo que envolveu mais de mil candidatos em todo o País.
“Temos colocados, ao nível do País, cerca de 292 estudantes, num universo de mais de mil candidatos que tivemos este ano”, revelou a directora-geral do Instituto de Bolsas de Estudo (IBE), Carla Coamba.
A responsável adiantou ainda que mais de 187 estudantes deverão deslocar-se a Portugal para frequentar formação técnico-profissional, no âmbito das oportunidades disponibilizadas aos estudantes moçambicanos.
Formação orientada para necessidades nacionais
Para alguns dos novos bolseiros, a viagem representa não apenas a oportunidade de aprofundar conhecimentos, mas também a possibilidade de regressar com competências destinadas a responder a problemas concretos do País.
É o caso de Felizardo Marques, natural de Nampula, que seguirá para o Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, onde frequentará o mestrado em Parasitologia Médica.
Com cerca de três anos de experiência na docência do ensino técnico-profissional e como assistente docente na Universidade Lúrio, Marques pretende aprofundar conhecimentos nas áreas do diagnóstico, vigilância epidemiológica e prevenção de doenças endémicas e negligenciadas.
“O objectivo é fortalecer a capacidade de Moçambique em matéria de diagnóstico, vigilância epidemiológica e prevenção de doenças endémicas e negligenciadas”, explicou o estudante, apontando a malária e as parasitoses entre as áreas em que pretende aplicar os conhecimentos adquiridos.
Também de Nampula parte Xabuca Santos António. Farmacêutico formado pela Universidade Lúrio, vai frequentar o mestrado em Biotecnologia na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.
O bolseiro iniciou a actividade profissional em 2022, na área da gestão farmacêutica, e procura agora aprofundar conhecimentos em biotecnologia, com particular interesse pelas suas aplicações nos sectores da saúde e da agricultura.
Entre as áreas que pretende explorar está a investigação de plantas existentes em Moçambique, procurando identificar moléculas com potencial de utilização farmacêutica. O estudante manifesta igualmente interesse no desenvolvimento de soluções que possam contribuir para tornar as culturas agrícolas mais resistentes à seca.
Para além das oportunidades de formação em Portugal, a cooperação portuguesa contempla bolsas destinadas a estudantes em instituições de ensino moçambicanas e na Escola Portuguesa de Moçambique, mantendo ainda o apoio ao acesso de estudantes nacionais ao ensino superior português.
