Finalmente, depois de algumas tentativas que por razões várias não foram avante, realizou-se o sonho de inúmeros quelimanenses, outros zambezianos e moçambicanos, de imensos naturais e amigos de Moçambique espalhados pelo mundo: foi reabilitado o edifício da antiga Igreja de Nossa Senhora do Livramento de Quelimane, o mais valioso património histórico edificado da província da Zambézia. De edifício abandonado e com sinais apontando para total ruína, é agora um centro cultural e turístico que pretende ser de referência em Moçambique: o Centro Cultural Bons Sinais.
Foi um pequeno grupo de amigos que, vendo o risco de se perder tão importante património, lançou um amplo movimento para juntar a si todos os que quisessem contribuir para o salvar
Situada em zona nobre junto ao Rio dos Bons Sinais, e conhecida por Igreja Velha de Quelimane, a antiga Igreja de Nossa Senhora do Livramento foi construída no período 1776-1786. Representa uma das poucas expressões arquitectónicas setecentistas em Moçambique e é um dos mais importantes testemunhos da presença portuguesa no vale do Zambeze, pelo que foi proclamada monumento nacional em 1943. Inicialmente igreja paroquial, tornou-se Sé Catedral com a criação da Diocese de Quelimane em 1954. Em 1974, com a construção da nova Catedral, igualmente denominada Igreja de Nossa Senhora do Livramento, perdeu esse estatuto, acabando por ser votada ao abandono e vandalizada, estado em que permaneceu durante décadas.
A história recente desse imponente edifício teve início quando um pequeno grupo de amigos com forte ligação a Quelimane, vendo o risco de se perder tão importante património, e ciente de pertencer a uma das últimas gerações que o poderia salvar, decidiu lançar um amplo movimento para juntar a si os naturais, residentes e ex-residentes da cidade, amigos e simpatizantes da província da Zambézia, bem como todos os demais que fossem sensíveis ao problema e quisessem de alguma forma contribuir para a sua resolução. Longe de um movimento saudosista ou regionalista, por muito que Quelimane e a Zambézia tivessem marcado a infância e juventude dos componentes desse pequeno grupo de amigos, tratava-se da manifestação de uma forte vontade de preservar a história e riqueza patrimonial do local, ajudando simultaneamente as entidades a melhorar a cidade e a vida dos que lá residem.
Foi desse movimento que nasceu a Associação dos Bons Sinais (ABS), entidade de interesse social e cultural sem fins lucrativos publicamente anunciada cinco anos atrás, nas comemorações do 75º aniversário da elevação de Quelimane a cidade. Na multidão que o testemunhou, encontravam-se já presentes dezenas de simpatizantes da causa, alguns dos quais antigos residentes da cidade vindos de diversos cantos do mundo para assistir ao acto e às festividades. Em nome destes, e de imediato sinalizando o seu desejo de apoiar a cidade e a província, a Associação ofereceu, num convívio realizado no dia seguinte na praia do Zalala, bolsas de estudo para 75 crianças frequentarem o ensino primário, livros para bibliotecas da cidade, medicamentos e kits cirúrgicos para os hospitais de Quelimane e Gurúe, bem como material desportivo para a equipa 1º de Maio, a única da província que se encontrava a participar no campeonato nacional de futebol. Destacou-se na ocasião a presença de Francisco Próspero dos Santos, engenheiro de 97 anos de idade que, ao fim de noventa anos de ausência, quis visitar a sua terra natal.
Seguiu-se uma ampla campanha de angariação de fundos, com apelos e cartas a particulares, instituições estatais e empresas moçambicanas, embaixadas e outras entidades internacionais, bem como acções diversas promovidas por membros e simpatizantes da ABS. Vendo no projecto um exemplo singular de acção da sociedade civil conjuntamente desencadeada por pessoas de diversas crenças religiosas e filiações partidárias, as Embaixadas do Reino da Noruega e dos Estados Unidos da América responderam muito positivamente aos apelos, acabando por conceder, em tranches, um total de aproximadamente quinhentos mil dólares para o projecto. Entre os membros e simpatizantes da ABS, significativos foram também os contributos financeiros, provenientes de acções diversas, tais como a doação individual e de algumas instituições de valores monetários, e a realização de jantares, um leilão de peças artísticas doadas pelos autores - Gemuce, Dino Jethá e Vista Alegre -, um espectáculo em Portugal com a participação pro bono de diversos artistas moçambicanos e portugueses, entre os quais os sobejamente conhecidos Rão Kyao e António Pinto Basto, uma rifa patrocinada por Shéu Han, antiga estrela do futebol português natural de Moçambique, a colocação de mealheiros em alguns pontos da cidade, a venda de T-shirts e outros artigos com o logotipo da Associação, e, finalmente, uma campanha intitulada “Coloque um mosaico no chão da antiga Catedral de Quelimane“. Diversas foram também as doações em género recebidas de membros e simpatizantes, tais como o trabalho especializado voluntário de engenheiros, arquitectos e outros, sacos de cimento, disponibilidade para troca de telhas marselhesas (iguais às originais do edifício) por chapas de zinco, a porta principal do edifício, transporte de alguns materiais por longa distância, publicações dedicadas a Quelimane e ao projecto, entre outras.
Passados que são 5 anos sobre o referido lançamento, os esforços realizados pela Associação dos Bons Sinais, que logo de início assinou um Contrato-Programa com a Diocese de Quelimane, proprietária do edifício, permitiram abrir, no passado 21 de Agosto, dia em que a cidade celebrou 80 anos de existência, o Centro Cultural Bons Sinais. O que se pretende é que ele seja um centro cultural e turístico de referência na cidade, podendo ser frequentado por todos os que nela residem ou a visitem. Não será mais um local de culto específico, mas um sítio para usufruto de todos, independentemente da sua filiação religiosa, que terá como missão promover a cultura, preservar e divulgar a história da cidade e da região e fomentar os valores fundamentais de paz e harmonia entre todos.
Muito fica por fazer. Os desafios imediatos prendem-se não só com a gestão, manutenção e segurança do património, mas também com a sua utilização devida, para o que a Associação dos Bons Sinais espera a colaboração dos habitantes da cidade e de todos os particulares e entidades colectivas que se interessem pela consecução dos mesmos ideais.
