Uma consulta pública britânica de 2023 pode ter sido inundada por robôs. Um novo estudo encontrou indícios de uma campanha automatizada em grande escala: mais de 90 mil respostas foram classificadas como fraudulentas e quase todas se opunham às restrições aos cigarros eletrónicos descartáveis.

Inédito, o caso foi analisado por investigadores das universidades de Edimburgo e Bath, que publicaram as conclusões na revista Tobacco Control. Encontraram indícios de interferência automatizada numa consulta pública do Reino Unido sobre medidas para reduzir o consumo de tabaco e de cigarros eletrónicos entre os jovens. Os autores admitem que poderá ser o primeiro caso documentado de uma operação deste tipo, em grande escala, num processo formal de consulta sobre políticas de saúde.

Mais de 90 mil respostas sob suspeita

A consulta, realizada em outubro de 2023, recebeu 118.756 respostas. Destas, 90.835, ou seja, 76,5%, foram classificadas como fraudulentas pelo Department of Health and Social Care (DHSC), através dos seus mecanismos de detecção de bots.

Ilustração de um robô branco e azul, com um balão de fala

Segundo o estudo, quase todas as respostas suspeitas limitavam-se a três perguntas de escolha múltipla. Dessas, 90.833 manifestavam oposição às restrições à venda e ao fornecimento de vapes descartáveis, e o mesmo número indicava ter conhecido a consulta através das redes sociais.

Para chegar a estas conclusões, os investigadores Nason Maani e Anna Gilmore analisaram relatórios oficiais e informações obtidas através de pedidos de acesso à informação dirigidos ao DHSC. Segundo os dados do governo britânico citados no estudo, as respostas suspeitas tinham características incompatíveis com um preenchimento normal do formulário: submissões repetidas, com uma frequência elevada, e provenientes de um número reduzido de endereços IP.

Esta interferência podia ter mudado de forma significativa a leitura dos resultados:

  • 81,3% dos participantes pareceriam opor-se às restrições, caso todas as respostas fossem consideradas legítimas;

  • mas 79,6% dos participantes considerados válidos apoiavam as medidas, depois de excluídas as respostas classificadas como fraudulentas.

Importa notar que estes resultados não representam necessariamente a opinião da população britânica em geral.

Responsáveis desconhecidos e limitações do estudo

A dimensão da operação e a uniformidade das respostas sugerem uma campanha coordenada, mas não foi possível identificar os responsáveis nem determinar se existiam interesses comerciais envolvidos. O estudo lembra que multinacionais da indústria do tabaco já recorreram a campanhas de mobilização em massa para influenciar consultas públicas.

Os investigadores reconhecem ainda que não conseguiram verificar de forma independente os métodos de detecção usados pelo DHSC, porque não foram divulgados, e que não tiveram acesso aos metadados nem às informações demográficas dos participantes. O estudo também não demonstra que as respostas tenham sido produzidas com recurso a Inteligência Artificial generativa.

Entretanto, no Reino Unido, a venda e o fornecimento de cigarros eletrónicos descartáveis foram proibidos a 1 de junho de 2025. Mais recentemente, a Tobacco and Vapes Act recebeu aprovação real a 29 de abril de 2026 e estabelece novas medidas de controlo do tabaco e dos produtos de vaporização, incluindo a futura proibição da venda de produtos de tabaco a pessoas nascidas a partir de 1 de janeiro de 2009.

Como proteger as consultas públicas

Para os autores, a evolução dos bots exige reforçar os mecanismos de detecção e de protecção das consultas públicas. Entre as soluções discutidas estão a limitação do número de submissões por endereço IP, a utilização de sistemas CAPTCHA e a criação de mecanismos que identifiquem potenciais conflitos de interesses.

O estudo alerta ainda que os riscos poderão ser maiores em países ou instituições com menos recursos tecnológicos para detectar campanhas automatizadas.