O continente africano enfrenta grandes desafios no que diz respeito às conexões aéreas entre cidades e países, contrastando com outras regiões do mundo. A vasta extensão territorial da maioria dos países africanos torna esta questão ainda mais complexa. Além disso, há diversos obstáculos a um rápido crescimento do sector da aviação, como a falta de infra-estruturas adequadas, deficiências tecnológicas e factores socioeconómicos.

Perante estes desafios e a crescente procura, os principais intervenientes do sector uniram esforços para criar o AviaDev, um fórum de desenvolvimento de aviação, focado em África, que reúne líderes da indústria, companhias aéreas, aeroportos, autoridades governamentais e outras partes interessadas para explorar oportunidades de crescimento e desenvolvimento no sector da aviação no continente. O evento inclui conferências, exposições e reuniões de networking, com o objectivo de aumentar a conectividade aérea em África, atrair investimentos e fomentar parcerias estratégicas. Esta plataforma é reconhecida como crucial para debater desafios e identificar soluções para o desenvolvimento da aviação africana.

Com uma visão de futuro promissor, o fórum reúne as mentes mais brilhantes e os avanços mais recentes para promover uma comunidade próspera, dedicada a superar os limites do que é possível nos céus. Na vanguarda da formação da próxima geração da aviação, o evento abrange desde tecnologias inovadoras a práticas sustentáveis, visando não só o acto de voar, mas o de alcançar novas alturas. Actualmente, já se observam resultados desta iniciativa, como a criação de novas rotas internacionais e a reactivação de rotas anteriormente desactivadas, ligando importantes hubs africanos, como Nairobi, no Quénia, Kuala Lumpur, na Malásia, e Maputo.
Os direitos de tráfego permitem que uma companhia aérea de um país transporte passageiros de um país terceiro para outro destino, um tipo de acordo comum em muitos países. A abertura dos espaços aéreos e a concessão destes direitos de tráfego mostram que uma cooperação mais estreita entre os operadores aéreos pode simplificar a operação face aos desafios actuais, facilitando a experiência dos viajantes e impulsionando o crescimento do turismo.

O relatório da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) destaca a crescente e consistente procura por serviços de transporte aéreo em África, o que representa uma oportunidade significativa para o crescimento e desenvolvimento do sector da aviação em todo o continente. A procura crescente estabelece uma base sólida para o desenvolvimento de opções de viagens aéreas mais eficientes e fiáveis, respondendo de forma mais eficaz às necessidades dos passageiros.

Moçambique está bem posicionado para tirar proveito da sua infra-estrutura abrangente, que inclui aeroportos em todas as províncias, bem como das suas diversas atracções turísticas e económicas. Estes factores criam um ambiente favorável para atrair investimentos no sector da aviação, que podem contribuir significativamente para a criação de empregos e a geração de receitas para o país.

João Carlos Pó Jorge, amplamente reconhecido pela sua vasta experiência no sector da aviação, foi convidado a partilhar a sua perspectiva sobre esta indústria complexa e distinta. Ao longo de uma carreira de várias décadas, tem liderado iniciativas transformadoras que impulsionaram o desenvolvimento da aviação em Moçambique e em toda a África. A sua visão estratégica e compromisso com a excelência têm sido fundamentais para a modernização e expansão do sector, posicionando-o como uma figura de referência no panorama da aviação africana. Nesta entrevista, explora a realidade subjacente ao AviaDev e seu impacto no desenvolvimento da aviação no continente:

Para começar, poderia dar-nos uma visão geral do AviaDev e dos seus objectivos?
O AviaDev iniciou em 2017, para responder à necessidade de estabelecer conectividade intra-africana, focando-se na cultura e no turismo no continente. Baseia-se em centrar a concepção do networking em entidades africanas, com parceiros e provedores de todo o globo. A sua estrutura assenta num modo conducente ao networking e com uma agenda bem planeada e rigorosamente monitorada, que garante o sucesso das trocas de informações e das negociações. O evento promove o turismo local e tem sempre um foco de apoio social e no desenvolvimento de projectos que promovam a inclusão de jovens na aviação.

Quais são as suas expectativas para a edição deste ano do AviaDev?
O AviaDev Africa 2024 em Windhoek enfatizou e estimulou a abertura de novos destinos em África, essencialmente com operadores africanos, mas também com outros de fora do continente. Realçou a importância da formação de jovens futuros gestores e profissionais que garantam a continuidade e o crescimento da aviação no continente. Não podemos representar 20% da população mundial e transportar apenas 2% do tráfego, especialmente com tanto para oferecer.

Como vê o impacto da influência política no sector da aviação em África?
A política é sempre um ponto importante nos temas do AviaDev África. O desenvolvimento da economia e o estabelecimento de classes médias amplas e sólidas são um pilar que permite e estimula o estabelecimento da conectividade, que por sua vez acelera as economias entre os destinos em causa. A política é vital quando estimula e apoia o desenvolvimento da indústria, sem interferir directamente nas operações e trocas comerciais. O discurso de Sua Excelência o Vice-Primeiro-Ministro da Namíbia foi bastante encorajador para este ambiente na indústria. O exemplo da postura do governo etíope, com políticas adequadas e sem ingerência directa, na sua relação com a Ethiopian, é um exemplo que resultou numa companhia africana de nível mundial, com uma presença que cobre o planeta e serve toda a África.

No que diz respeito aos acordos bilaterais, que papel desempenham no contexto da aviação africana?
Os acordos bilaterais deixaram de ter o peso que tinham anteriormente, e passou-se a ter vários operadores designados sem restrição. O continente africano precisa de ter conectividade aérea entre as regiões e entre os hubs para fora do continente. O SAATM, a decisão de abrir o espaço aéreo africano aos operadores do continente, do qual Moçambique é signatário, sobrepõe-se aos bilaterais, abrindo espaço para as 5as liberdades, em que um operador de um terceiro país africano pode operar uma rota entre dois destinos de dois países. A LAM, por exemplo, voa entre Harare e Lusaka com direitos de tráfego. A Ethiopian faz isto como prática comum.

Como é que o contexto pan-africano influencia o desenvolvimento da aviação em África?
A União Africana tem dado imenso apoio no reforço da conectividade em África. Faz parte da sua visão 2063 criar um espaço aéreo africano único e um ambiente regulador comum. Isto permite grande mobilidade e alcance para todos os operadores e profissionais africanos pelo continente. Com isto, muita economia de escala, com possível redução de custos para o consumidor. Isto existe em todo o espaço europeu.

Qual a importância do desenvolvimento tecnológico para o futuro da aviação em África?
África e os africanos brilham quando se trata de adoptar ou desenvolver tecnologia, desde que acessível e útil. Vejamos os telemóveis e as suas plataformas de pagamento. Na aviação, o desenvolvimento tecnológico vai trazer redução de custos operacionais, o que aumentará o número de usuários, reduzindo ainda mais esses custos. Os drones eléctricos ou a biocombustíveis vão proliferar e permitir alcançar lugares sem estrada nem aeroporto, preservando a biodiversidade que tanto queremos conservar.