Há palavras que carregam um peso cultural tão forte que parecem conduzir automaticamente a uma determinada interpretação. Em Moçambique, "xipoco" é uma delas. Associada ao sobrenatural, aos espíritos e ao desconhecido, faz parte do imaginário colectivo de gerações. Mas é precisamente essa leitura que o artista moçambicano Ash Ismael desafia na sua mais recente exposição, Xipocos, inaugurada a 1 de Julho, na Galeria do Centro Cultural Camões, em Maputo.
Longe de procurar representar fantasmas ou entidades sobrenaturais, Ash utiliza o conceito como uma metáfora para aquilo que não conseguimos explicar nas pessoas e nos seus comportamentos. No quotidiano moçambicano, a palavra é frequentemente usada para descrever atitudes inesperadas, contraditórias ou aparentemente irracionais. É essa dimensão humana que o artista procura explorar. "Pelo título parece que estou a apontar para o lado sobrenatural, mas é precisamente o oposto", explica. "Xipoco consegue ser mais uma explicação do que propriamente uma entidade." A exposição apresenta um conjunto de desenhos que procuram revelar aquilo que permanece escondido sob a superfície. São retratos psicológicos, fragmentos de encontros, emoções e inquietações que nasceram da observação das pessoas com quem se cruza diariamente. No centro da exposição surge uma frase que desperta imediatamente a curiosidade: "É sobre todos nós, os mentirosos que dizem a verdade."

Para Ash Ismael, esta ideia nasce da própria condição humana. Segundo o artista, desde sempre o ser humano encontrou na mentira uma estratégia de sobrevivência. Com o tempo, mentir aos outros e até a si próprio tornou-se uma prática quase natural, deixando marcas profundas na forma como nos relacionamos com o mundo. Essas contradições encontram expressão nas suas obras. Mais do que ilustrar personagens específicas, os desenhos reflectem comportamentos universais, revelando fragilidades, máscaras e conflitos interiores que atravessam qualquer sociedade. Curiosamente, Ash admite que raramente inicia um desenho com uma ideia definida. O processo criativo acontece de forma espontânea, quase intuitiva. "Quando começo a desenhar, não faço a mínima ideia do que vai acontecer. Deixo a caneta comandar e a mente em completo transe", afirma. Essa entrega ao gesto torna cada obra imprevisível, permitindo que formas, rostos e símbolos surjam sem planeamento prévio. O resultado é um universo visual que oscila entre o abstracto e o figurativo, onde cada observador é convidado a construir a sua própria leitura.

Ao longo de mais de três décadas de carreira, Ash Ismael construiu um percurso multidisciplinar que atravessa a música, a fotografia, o vídeo, o design e as artes visuais. Ainda assim, é no desenho que continua a encontrar a sua linguagem mais íntima. "Desenho sempre foi para mim o começo de tudo. É algo que faço todos os dias, onde quer que esteja." Essa relação quase diária com o desenho ajuda a explicar a naturalidade e intensidade das obras agora apresentadas, que parecem nascer de um fluxo contínuo entre pensamento e gesto.
Apesar do título remeter para um elemento profundamente enraizado na tradição oral moçambicana, o artista faz questão de sublinhar que a sua abordagem não pretende interpretar ou revisitar esse património cultural. Para ele, a arte nasce sobretudo da imaginação e da abstracção, mais do que de uma intenção de explorar crenças ou tradições. Também por isso, Ash não procura oferecer respostas fechadas. Pelo contrário, aceita que o significado das suas obras continue a transformar-se depois de expostas. "Por vezes nem eu sei exactamente o que significam. Há interpretações do público que fazem mais sentido do que a minha intenção inicial", confessa. Essa abertura ao diálogo faz parte da própria experiência da exposição, onde cada visitante é convidado a permanecer diante das obras o tempo necessário para descobrir as suas próprias perguntas. Para o artista, Xipocos representa igualmente um momento importante do seu percurso. Expor na Galeria do Centro Cultural Camões significa alcançar uma plataforma de grande prestígio e projecção internacional, abrindo portas para novas oportunidades e colaborações futuras.

A programação inclui ainda um evento complementar intitulado Uma Noite de Áudio Cinemática, onde Ash Ismael apresenta um vídeo multidisciplinar experimental que cruza composição musical, orquestra, electrónica, vídeo e animação artística. A sessão termina com uma conversa aberta ao público sobre os processos criativos, as técnicas utilizadas e os bastidores da produção audiovisual. Mais do que uma exposição de desenho, Xipocos afirma-se como um convite à introspecção. Entre figuras inesperadas, traços espontâneos e interpretações múltiplas, Ash Ismael lembra-nos que talvez os maiores mistérios não pertençam ao mundo dos espíritos, mas às pessoas que encontramos todos os dias, incluindo nós próprios.