A Associação de Luta contra o Cancro da Mama – Outubro Rosa Moçambique (ALCCM-ORM) nasceu de uma necessidade urgente e profundamente humana: aproximar informação, apoio e esperança das pessoas afectadas pela doença num país onde o diagnóstico tardio, o medo e a falta de conhecimento continuavam a custar vidas. Desde o primeiro momento, o propósito ficou claro. Educar, apoiar e incentivar o diagnóstico precoce tornou-se o eixo central de um movimento que se recusa a deixar alguém para trás, independentemente da idade, género ou condição social.
O Outubro Rosa Moçambique ganhou força por compreender, desde cedo, que nenhuma sensibilização é verdadeiramente eficaz se não estiver ancorada na realidade cultural e social do país. A associação trabalhou sempre com a linguagem, as vivências e os desafios locais, adaptando cada mensagem às necessidades reais das comunidades. Mais do que uma campanha anual, tornou-se uma plataforma de acolhimento e transformação, onde informação e afecto caminham lado a lado.
A Feira da Família deste ano foi um exemplo claro dessa missão em acção. Reuniu cerca de trezentas pessoas durante todo o dia, num ambiente marcado por cumplicidade, energia e solidariedade. A Caminhada Rosa Familiar, orientada pelo coach Mauro Raja, abriu o encontro com movimento e simbolismo. Seguiram-se actividades que aproximaram pais e filhos, desde yoga guiado por Lisa Yvonne a demonstrações de defesa pessoal da Associação Nacional de Tang Soo Do, que trouxe campeões africanos e um campeão mundial, além de uma vibrante secção de capoeira com o grupo Manganga. A saúde esteve no centro do evento com a MSS (Medical Support Services), que realizou check-ups básicos e promoveu palestras rápidas sobre nutrição e bem-estar, conduzidas pelo Dr. Humberto Xavier e pela enfermeira Blanca. O testemunho da sobrevivente Alcinda Chavane acrescentou profundidade emocional ao dia, lembrando que estatísticas ganham rosto e voz quando partilhadas por quem viveu a realidade do cancro da mama.
A música e a dança reforçaram a alegria do encontro, com actuações de Jay Arghh, Idelsa, a banda Os Manguinhas, Kátia Vanessa, os DJs Adilson e Kosmic Keys e o grupo MozLatin Movement, que levou famílias inteiras a partilharem um momento leve e descontraído. A recolha de donativos superou expectativas, com produtos de higiene, alimentos e água que foram posteriormente entregues aos pacientes da oncologia do Hospital Central de Maputo. Esses bens foram acompanhados pelos “Bilhetes da Esperança”, mensagens e desenhos preparados pelas famílias presentes na feira. A entrega representou muito mais do que apoio material. Para os pacientes, significou conforto, dignidade e a certeza de não estarem sozinhos; para a associação, confirmou a força da comunidade e a confiança dos parceiros, entre os quais Casino Polana, Joga Bets, Medical Support Services, Grupo Evolution, Água da Namaacha, Grindrod, IMP Diagnostics, Eu Crio, Grupo Perfect, Emotion, Farmácias Maria Elisa, MozLatina Multi Services, Moztickets, Revista Xonguila, Promotion Media Services, TV Sucesso, Njando Produções, Lambda, ALCC e AMN.
Ao longo dos anos, a ALCCM-ORM consolidou conquistas que mudaram o modo como Moçambique olha para o cancro da mama. Foi pioneira no lançamento do Outubro Rosa no país, em 2016, numa época em que o tema não ocupava espaço nas rádios, televisões ou redes sociais. Levou informação onde ela não chegava e tornou-se referência para escolas, instituições e comunidades que hoje procuram activamente as suas formações. Prestou apoio emocional, financeiro e prático a inúmeras pessoas em tratamento e estendeu a sua presença para além de Maputo, alcançando também unidades de saúde nas regiões centro e norte. Fez nascer parcerias nacionais e internacionais que ampliaram o alcance do movimento e testemunhou um aumento real do diagnóstico precoce, resultado directo da sensibilização contínua.
Mas o caminho continua repleto de desafios. Muitas pessoas continuam sem acesso fácil ao diagnóstico precoce. Persistem barreiras culturais que atrasam a procura de ajuda e faltam recursos para levar informação às zonas mais remotas. O apoio psicológico contínuo é insuficiente e a criação de mais grupos de suporte depende de meios financeiros ainda limitados. Mesmo assim, cada dificuldade tem servido como motivação.
A colaboração com parceiros, artistas e instituições tem sido determinante. Eles trazem recursos, visibilidade e legitimidade a uma causa que precisa de todos. A associação acredita que o futuro passa precisamente por reforçar estas alianças e levar a mensagem sobretudo às comunidades que chegam aos centros de saúde em estágios avançados por falta de informação. As lições aprendidas no terreno revelaram que cada história é diferente e merece ser ouvida, que a coragem se manifesta de múltiplas formas e que ninguém deveria enfrentar o cancro da mama sozinho, porque o afecto é tão essencial quanto o tratamento. Para este artigo, a Xonguila contou com a colaboração de Sílvia Sacur, Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação da Luta Contra o Cancro da Mama – Outubro Rosa Moçambique, onde também assume as funções de responsável de Marketing, Comunicação, Parcerias e Projectos.
Para o próximo ano, estão previstas novas campanhas comunitárias, o reforço das formações e palestras, mais acções em zonas periféricas e a expansão da Feira da Família, para que se torne ainda mais inclusiva. A associação quer fortalecer os programas de apoio psicossocial e aumentar o alcance das actividades de rastreio e prevenção.
E a ALCCM-ORM deixa uma mensagem simples, directa e profundamente humana às famílias moçambicanas. Conhecer o corpo é cuidar. Tocar, sentir e observar são actos de prevenção. Ignorar sinais é um risco que não se deve correr. Procurar ajuda a tempo é uma escolha que pode salvar vidas. O cancro da mama não escolhe género, idade ou aparência; todos devem estar atentos. Quando cada pessoa se cuida e cuida dos seus, toda a comunidade ganha força. E é precisamente dessa força colectiva que o movimento vive, porque juntos, como a ALCCM-ORM nunca se cansa de lembrar, somos mais fortes.
