África está a crescer — e cada vez mais com os próprios meios.

A conclusão surge numa entrevista concedida por Landry Signé, economista e especialista em desenvolvimento africano, à BBC News Mundo, onde analisa a forma como o continente tem vindo a reduzir a dependência da ajuda internacional e a fortalecer a sua autonomia económica.

Durante décadas, a narrativa dominante apresentava África como dependente de financiamento externo para sustentar serviços básicos, combater a pobreza e manter programas sociais. Organizações internacionais chegaram mesmo a alertar que uma redução significativa da ajuda poderia provocar uma crise humanitária de grandes dimensões.

Um relatório publicado em 2025 na revista científica The Lancet, assinado por 15 especialistas, chegou a estimar que cortes na ajuda internacional poderiam levar a até 14 milhões de mortes prematuras no continente até 2030.

Contudo, um ano depois, o cenário revelou-se mais complexo.

Embora algumas regiões tenham registado impactos negativos, a África, como um todo, não entrou em crise. Pelo contrário, o continente registou crescimento económico em 2025 e deverá manter essa tendência em 2026.

Segundo projecções do Fundo Monetário Internacional, 11 das 15 economias com crescimento mais rápido no mundo em 2026 estarão em África, tornando o continente a região com maior expansão económica global.

“Muitos países africanos demonstraram uma resiliência que alguns poderiam considerar surpreendente”, afirmou Landry Signé.

O mito da dependência

Segundo o especialista, a ideia de que África depende essencialmente da ajuda externa é, em grande medida, um equívoco.

Os dados mostram que a ajuda internacional representa apenas uma parte das receitas das economias africanas. Em 2023, a ajuda ao desenvolvimento destinada ao continente totalizou 73,8 mil milhões de dólares. No mesmo período, as remessas enviadas pela diáspora africana atingiram 90,8 mil milhões, o investimento estrangeiro directo alcançou 97,1 mil milhões e a arrecadação fiscal interna chegou a 479,7 mil milhões.

Além disso, a dependência da ajuda externa já vinha diminuindo ao longo dos últimos anos. O número de países onde a ajuda representava mais de 5% do Produto Interno Bruto caiu de 27 em 2000 para 22 em 2022. Nos casos acima de 10%, a queda foi de 14 para nove países, enquanto acima de 20% reduziu-se de cinco para apenas um.

Ao mesmo tempo, várias economias africanas avançaram em sectores estratégicos.

Maurícia destacou-se pelo acesso à internet nas escolas, legislação de comércio electrónico e presença de investidores de capital de risco. O Quénia tornou-se referência global em pagamentos móveis, enquanto o Ruanda ganhou notoriedade pela utilização de drones para entrega de suprimentos médicos.

Sinais claros de uma transformação económica gradual.

Impactos reais, mas localizados

Apesar da resiliência, os efeitos da redução da ajuda internacional foram reais, sobretudo na área da saúde.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre Janeiro e Outubro de 2025, 5.687 unidades de saúde em 20 contextos humanitários foram afectadas pela diminuição da ajuda. Cerca de 2.038 encerraram, reduzindo o acesso a cuidados médicos para 53,3 milhões de pessoas.

Na Nigéria, Médicos Sem Fronteiras relataram 652 mortes infantis por desnutrição na região de Katsina, nos primeiros seis meses de 2025.

Ainda assim, vários países conseguiram adaptar-se rapidamente. Alguns governos mobilizaram recursos internos, enquanto a sociedade civil e o sector privado passaram a desempenhar um papel mais activo na substituição dos financiamentos perdidos.

Na Nigéria, por exemplo, iniciativas locais apoiadas por organizações filantrópicas permitiram financiar 17 organizações não-governamentais durante três meses, ajudando a reduzir o impacto imediato.

Países mais vulneráveis

Nem todos os países conseguiram adaptar-se com a mesma rapidez.

Somália, Libéria e República Centro-Africana, marcadas por conflitos internos e forte dependência da ajuda internacional, continuam a enfrentar dificuldades significativas. Nesses países, a insegurança alimentar, o deslocamento de populações e as doenças aumentaram após a redução do financiamento externo.

Organizações internacionais e alguns parceiros internacionais disponibilizaram apoio adicional, mas a fragilidade estrutural continua a limitar a capacidade de resposta.

Diversificação económica

Face ao novo cenário, muitos países africanos optaram por diversificar as suas economias e parceiros comerciais.

A África do Sul firmou novos acordos para exportação de produtos agrícolas e reforçou relações comerciais com mercados asiáticos. O comércio dentro do próprio continente também ganhou importância, representando mais de metade das exportações agrícolas sul-africanas em 2025.

O Botsuana, por sua vez, adoptou maior prudência fiscal, apostando em parcerias público-privadas para infra-estruturas e abrindo sectores à iniciativa privada com o objectivo de atrair investimento e reduzir o desemprego.

Estas medidas, embora nem sempre populares, são vistas como essenciais para fortalecer a economia a longo prazo.

O papel das matérias-primas e novos parceiros

O aumento dos preços das commodities também ajudou a aliviar pressões inflacionárias e a reforçar receitas governamentais.

Países como Costa do Marfim, Egipto e Marrocos ampliaram relações comerciais com parceiros regionais, europeus e asiáticos. Ao mesmo tempo, alguns países europeus aumentaram os seus orçamentos de ajuda ao desenvolvimento, enquanto outros mantiveram os níveis existentes.

Os Emirados Árabes Unidos também reforçaram a assistência em segurança na África Subsaariana.

A China, por sua vez, expandiu a cooperação económica com o continente. Em 2024, eliminou tarifas de importação para produtos de 33 países africanos menos desenvolvidos, impulsionando o comércio bilateral para 296 mil milhões de dólares. A partir de 2026, 53 países africanos poderão exportar os seus produtos livres de tarifas.

Ao mesmo tempo, a Rússia consolidou-se como parceiro de segurança em países do Sahel.

Uma nova realidade económica

Além dos recursos naturais, África possui um dos maiores activos estratégicos do futuro: a demografia.

Até 2030, metade dos novos trabalhadores do mundo estará na África Subsaariana. Em 2050, mais de um terço da população jovem global viverá no continente.

Para Landry Signé, este cenário representa uma oportunidade histórica, mas exige políticas económicas eficazes e criação de emprego.

O especialista defende uma estratégia baseada nos “quatro Ps”: prosperidade, poder, paz e princípios — uma abordagem que poderá fortalecer o crescimento sustentável do continente.

E, lentamente, essa transformação já está em curso.

Sem depender tanto da ajuda externa, África começa a afirmar-se como uma das regiões económicas mais dinâmicas do mundo — mais autónoma, mais resiliente e cada vez mais preparada para definir o seu próprio futuro.