Como as abelhas foram um instrumento para mudança na vida das comunidades moçambicanas
Imagine não poder saborear, nunca mais na sua vida, o delicioso sabor de mirtilos, amêndoas ou melões. O muito que estaria a perder! E não se trata apenas destas culturas ou frutos especificamente, mas de muitos outros que dependem da polinização. As abelhas são cruciais não só para a polinização, mas também para sustentar a vida das comunidades locais.
O ano 2020 tem sido peculiar, mas, no meio de tudo, as comunidades africanas têm sido capazes de chegar a mais de 4,5 toneladas de mel amigo da vida selvagem, uma colheita que tem funcionado como fonte de rendimento sustentável para essas comunidades.
O Parque Nacional da Gorongosa, situado no centro de Moçambique, conhecido pela sua acção na restauração da vida selvagem após a guerra civil, tem um programa designado Gestão de Recursos Naturais Baseada na Comunidade – em redor do parque vivem cerca de 200.000 comunidades. O programa centra-se em negócios baseados em recursos naturais, como, por exemplo, gestão de florestas, rios e terras, nele participando os membros locais em colaboração com o Parque Nacional da Gorongosa. Os negócios são directamente benéficos para as comunidades na zona tampão. Para além dos seus outros programas, como o Café da Gorongosa, e as plantações de caju, elas também possuem uma Colheita de Mel. Os membros locais colhem mel das colmeias fornecidas pela equipa do Parque Nacional da Gorongosa, sendo o mel processado e vendido. Este programa ajuda a sustentar a vida dos membros das comunidades locais através de emprego.
As abelhas são cruciais não só para a polinização, mas também para sustentar a vida das comunidades locais
A Legado é uma organização cuja actividade consiste em proteger e preservar a biodiversidade de montanhas (uma das quais é o Monte Namuli) existente na Zambézia, Moçambique. O seu trabalho não se centra unicamente nas montanhas, mas também nas comunidades locais e sua cultura, proporcionando-lhes educação, cuidados de saúde, rendimentos e direitos à terra e recursos. A organização apoia os apicultores locais das comunidades de Mucunha a Murrece, no Monte Namuli, que ajudam a colher mel bruto, o que lhes dá uma excelente oportunidade de aprender e ter rendimento.
O Projecto Leão do Niassa é uma organização que ajuda a criar uma coabitação harmoniosa entre leões, os habitantes do Niassa e outros carnívoros, no Norte de Moçambique. A reserva tem mais de 42 aldeias, com mais de 60.000 residentes. A Reserva do Niassa tem programas que se designam Meios de Subsistência Alternativos, programas esses que ajudam a proporcionar rendimento, a aumentar a segurança alimentar e a incentivar empresários para as comunidades que vivem nas áreas remotas.
Tanto o Parque Nacional da Gorongosa como a Reserva do Niassa usaram um método apropriado para colher mel e trazer uma solução para o conflito entre humanos e elefantes. Conseguiram-no construindo cercas de colmeias, para elefantes. Estas cercas são essenciais, uma vez que as abelhas que nelas se encontram ajudam a impedir os elefantes de destruírem as culturas das comunidades circundantes, polinizam as culturas e fornecem mel puramente orgânico para poder ser vendido. O rendimento que daqui se obtém vai directamente para os apicultores.
Todas estas organizações estão, de certa forma, a contribuir para reduzir os níveis de pobreza nas áreas locais através da realização de projectos de base comunitária e proporcionando-lhes uma janela de oportunidade para aprender, crescer e interagir. As abelhas provam e lembram-nos que “ninguém é pequeno de mais para fazer a diferença”.
