Pomene, o paraíso esquecido
Escrito por: Miguel Peral
Seguimos pela N1, depois da nossa partida da Barra. Pela primeira vez, fazemos esta estrada, que, logo no início, nos oferece uma paisagem fantástica. A partir de Maxixe, vemos a bela cidade de Inhambane. Vale a pena parar uns minutos e contemplar esta imagem.
Continuamos o nosso caminho, pois a ansiedade de chegar a Pomene é grande. A estrada está em óptimas condições, passa por poucas vilas e está quase sem trânsito. Pouco tempo depois, cerca de 45 minutos, chegamos a Massinga e, já na saída, encontramos a placa que procurávamos: POMENE!
Seguindo a indicação, entramos numa estrada de terra batida que, por 53 km, nos irá levar ao nosso destino. É importante dizer que a estrada até Pomene é dura, com partes de terra batida em más ou muito más condições, com muita areia solta, pelo que até Pomene levamos uma hora e trinta minutos. A verdade é que a estrada requer um 4x4 robusto e forte, bons pneus e uma condução hábil e atenta.
Passados 32 km do nosso desvio em Massinga, chegamos à entrada da Reserva Nacional de Pomene. O guarda, que nos saúda com um sorriso e muita calma, aproxima-se, questionando se vamos para Pomene, afinal somos os primeiros visitantes em dois dias. Tratamos das formalidades, nome, matrícula, identificação e pagamento das taxas: duzentos meticais por pessoa (nacional ou residente em Moçambique) e quatrocentos meticais pelo carro. Falamos das espécies nativas da Reserva, que, não possuindo animais de grande porte, é bastante diversificada.
Continuamos o nosso caminho rumo à Vila de Pomene. Mais 20 km e estaremos no nosso destino. Começamos a ver à nossa direita uma enorme duna, curvamos, subimos, descemos, sempre em areia, sempre com vistas fantásticas... De repente, o Índico! Ahhhh... o Índico é lindo, e em Pomene parece ainda mais espectacular. Chegamos à Vila de Pomene e, entre algumas indicações, vemos a do Shipwreck Lodge, para onde nos dirigimos e onde temos um fantástico sorriso à nossa espera: o Elvis!
É impossível em palavras descrever tudo o que sentimos nesses três dias em que lá estivemos. É simplesmente inesquecível. O que relatamos de seguida são apenas algumas das sensações de Pomene.
Cabe aqui explicar a razão do título deste artigo: Pomene é, sem qualquer dúvida, um paraíso na terra, um local em que, para onde quer que olhemos, só vemos beleza! Um local cheio de sorrisos, cheio de vontade de agradar e de cativar quem lá chega. Um paraíso pouco tocado pela mão humana, mas as poucas mãos que lhe tocam, fazem-no com cuidado, com carinho e amor, mantendo-o um verdadeiro paraíso natural. Mas, embora um paraíso, está esquecido. Esquecido porque não existe electricidade, excepto a que é gerada por geradores e por painéis solares, esquecido porque a estrada até lá é acessível apenas a poucos carros e a condutores com experiência de estradas difíceis. Esquecido porque parado no tempo, não tem quem lhe dê um maior sentido. Esquecido porque poucos de nós lá vamos.
Pomene é um paraíso na terra, um local em que, para onde quer que olhemos, só vemos beleza! Um local cheio de sorrisos, cheio de vontade de agradar e de cativar quem lá chega. Mas, embora um paraíso, está esquecido
Esquecido porque, faltando o conforto que temos nas cidades, preferimos ir a locais onde temos as comodidades idênticas às que temos em nossas casas. Mas, em certa medida, estamos gratos por Pomene estar “esquecido”, pois de outra forma não teríamos sentido a paz que ali encontrámos.
Façamos de Pomene um paraíso menos esquecido, com as nossas visitas! Mas visitas que sejam uma mais-valia para aquele maravilhoso local e para aquelas gentes de belo e fácil sorriso.
O que ver/visitar
Por onde começar? Exacto, mal chegámos a Pomene, percebemos que três dias poderiam não ser tempo suficiente para nos deliciarmos com todo aquele paraíso. Na realidade pudemos fazer e ver muitas coisas, mas o descanso foi curto. Sugerimos cinco dias, pois dessa forma o descanso terá o seu tempo! As nossas dicas:
1. Gruta de Pomene – Uma gruta escavada pelo mar que possui uma abertura no topo. Um lugar lindo, mas apenas acessível na maré baixa. Um “must go” pela beleza natural, pelo cheiro de mar, pela experiência. Proporciona lindas fotografias!
2. Praia de Pomene ou Praia do “Hotel” de Pomene - Uma pequena e idílica praia orientada para Sudoeste, ou seja, com muita exposição solar desde cedo até meio da tarde. É absolutamente imperdível passar umas horas nesta praia de mar calmo e excelente para fazer snorkling ou simplesmente flutuar nas águas transparentes. É um local absolutamente lindo e de uma calma extrema. As horas que ali passámos foram as mais tranquilas.
3. “Piscina” de Pomene - uma formação rochosa que é acessível desde a Praia de Pomene ou Praia do “Hotel” de Pomene (também ali localizado), que aparenta ser uma piscina natural, com uma generosa dimensão. O espaço que a envolve é lindo, um pouco mais radical, mais aventureiro. Aconselhamos alguma prudência, mas dá uma sensação a não perder.
4. Ruínas do Hotel de Pomene – Um complexo edificado em que, de facto, sentimos pena por estar em ruínas. Economicamente era inviável, e, mesmo quando o estado moçambicano tentou arranjar investidores para o reabilitar e garantir um local turístico de excelência, não foi possível levar avante a sua intenção. Percebe-se que nos anos 60 e 70 deverá ter sido um local especial, pois parece pensado ao detalhe para proporcionar privacidade, conforto e paz. O local onde está implantado não poderia ser melhor, pois desse braço de terra podemos assistir ao nascer e ao pôr-do-sol, mas também à passagem de baleias e golfinhos.
5. Vila de Pomene – A vila é tranquila, excelente para passear por entre as suas (poucas) casas, o seu pequeno comércio e os bares locais, onde beber uma cerveja é obrigatório. As crianças vêm “estudar-nos” e pedir uma moeda, sorriem, sorriem muito, mesmo sem a moeda. Ali deixar uma bola de futebol pode proporcionar uma grande alegria aos nossos corações.
6. Baía de Pomene – A Baía de Pomene é também uma enorme praia a perder de vista, onde assistimos a um dos mais belos pores-do-sol até hoje. Ver os pescadores a chegarem nas suas pequenas e frágeis embarcações, com peixe fresco, sentir a areia sob os nossos pés, tão pouco tocada e tão fofa que nos sentimos a caminhar como se fosse sobre uma nuvem. Aqui o espaço é quase infinito. Continuando pela praia fora, chegamos ao local onde a MSC, uma empresa de cruzeiros, aporta todas as quartas-feiras da época alta, trazendo e levando diversos turistas, que vêm passar um dia ou uma semana. Do lado interior, fica como que uma lagoa (quase permanentemente aberta ao mar), onde, se ainda não tínhamos descoberto o paraíso que é Pomene, perdemos qualquer dúvida e ficamos sem fôlego. A vida selvagem é aqui pujante, com imensos caranguejos pequenos e médios que habitam um mangal preservado, diversos moluscos de concha, garças, gaivotas e uma das maiores colónias de flamingos de Moçambique, com mais de 500 aves. Aqui podemos passar horas sem fim.
7. Caminhar – Caminhar muito, deixar a fina areia envolver-nos os pés, sentir a água cálida do Índico tocar-nos, sentar e esquecer que existe algo mais que Pomene. Sim, esta é sem dúvida uma das “visitas” a fazer, preferencialmente diversas vezes em cada dia.
8 Estrelas – Num local onde não existe energia eléctrica que não seja por painéis solares ou gerador, à noite, quando tudo fica escuro, sentarmo-nos ou deitarmo-nos na areia da praia, e deixar que as estrelas nos “toquem”, é, sem dúvida, uma das mais belas vistas de Pomene. A ausência de luz, especialmente com a Lua Nova ou nos dias imediatamente anteriores ou posteriores.
As pessoas
Pomene é mais do que as suas paisagens. As pessoas de Pomene são, também elas, o paraíso onde vivem. A sua simpatia, a empatia com quem os visita, a disponibilidade, os sorrisos apenas porque sim, o trato... Aqui homenageamos quem nos recebeu e cuidou!
Simeão, homem da pesca a que a idade obrigou a procurar trabalhos mais leves, mas não menos importantes. Foi ele que nos trouxe o peixe fresco, que o preparou, com mãos conhecedoras da arte de bem cuidar do peixe. Ora sorridente, ora algo reservado, mas sempre por ali, não fosse um de nós precisar de algo. A Dona Luísa, que cuidou de nós, manteve a casa (que é fantástica) sempre impecável. Mantinha-se longe da vista, mas, mal ouvia o seu nome, lá estava ela! Mulher reservada, mas dedicada.
Finalmente, o Elvis, gerente do Shipwreck Lodge, foi um companheiro, sempre a dar dicas, a mostrar caminhos, de sorriso pronto, sempre disponível, mesmo em horários já mais tardios. O Elvis tratou de tudo, garantiu que a nossa passagem por Pomene fosse inesquecível. A ele devemos alguns conselhos sobre caminhos e locais, mas, acima de tudo, a forma como nos fez sentir parte daquele paraíso!
A Vila de Pomene
Pomene é uma vila pequena, com poucos habitantes, todas as suas casas são feitas de materiais frágeis e que os próprios recolhem para as construir. Pessoas que dependem do turismo e que, fruto da pandemia, estão ainda mais pobres e carenciadas. Existe uma escola primária, mas todos os restantes serviços públicos são na Vila de Rio das Pedras ou em Massinga. A Vila está próxima do mar, numa zona de mangal.
Onde ficar?
Nós ficámos no Shipwreck Lodge e recomendamo-lo, mas há outras opções, embora poucas. A casa onde ficámos é para uma família de 6, ou mesmo 8 pessoas. Mas, o Shipwreck Lodge possui algumas suites (quarto e wc) e outra casa, para 4. Fica mesmo na praia, tem um terraço fantástico, muito espaço de convívio. As casas estão muito bem equipadas em termos de eletrodomésticos. Em Pomene, todas possuem energia solar, e geradores de reserva. Não tivemos qualquer problema durante a nossa estadia. Todas as opções de alojamento estão disponíveis online, numa busca por: alojamento Pomene.
